A desmoralização da direita brasileira

Volta do recesso é sempre um problema quando você tem muito sobre o que falar, pouco espaço para escrever e menos ainda para refletir. Tal é o tormento que angustia a qualquer blogueiro decente quando volta das férias. Para não atropelar os fatos, nem falar sobre coisas cujo sentido acabou se perdendo no tempo, vamos a um tema do momento, sobre uma das vertentes mais mal incompreendidas deste espaço: a direita brasileira.

Quem tem Twitter ou acompanha o noticiário banal das “celebridades” na Internet deve ter tomado conhecimento do entrevero entre um blogueiro da Veja, um filósofo exilado nos Estados Unidos e um ex-blogueiro da revista da Abril. O primeiro, ao escrever um texto sobre o segundo, acabou sendo alvo de violento contra-ataque, contando em seguida com a solidariedade do terceiro. Este, por sua vez, acabou desqualificado sumariamente pelo segundo, que acabou por repudiar a tudo e a todos, com direito a uso intensivo de largo vocabulário de baixo calão.

Dando nomes aos bois: o blogueiro da Veja é Reinaldo Azevedo; o filósofo exilado nos Estados Unidos é Olavo de Carvalho; e o ex-blogueiro da revista dos Civita é Rodrigo Constantino. Figurinhas carimbadas daquilo que alguém ousou denominar de “pensamento neoconservador brasileiro”, os três protagonizaram um embate que dá bem a dimensão da pobreza intelectual que viceja em nosso país: se Jair Bolsonaro (!!!) era ou não a melhor opção da “direita” brasileira para as eleições presidenciais em 2018.

Antes de mais nada, deve-se dizer que o pensamento conservador clássico assenta-se em cinco premissas básicas: 1 – rejeita o comunismo, o socialismo, ou qualquer outra vertente do marxismo; 2 – tem na religião (principalmente a cristã) um de seus princípios morais e a defende como instrumento de coesão social; 3 – é liberal na economia, postulando princípios de não-intervenção estatal e ampla liberdade de produção de riqueza através do sistema capitalista; 4 – acredita na igualdade perante a lei e em um Estado com força suficiente para intervir e restabelecer o equilíbrio social quando necessário; e 5 – defende a liberdade como valor fundamental do indivíduo.

Estabelecidas essas premissas, pode-se concluir que: 1 – quem defende “coletivismo” ou “superação do capitalismo” não pode ser considerado “de direita” (falha na primeira premissa); 2 – quem defende uma sociedade absolutamente laica (nada a ver como Estado laico) não pode ser considerado “de direita” (falha na segunda premissa); 3 – quem defende criação de estatais para intervir na economia não pode ser considerado “de direita” (falha na terceira premissa); 4 – quem acredita ser possível estabelecer “castas” ou grupos de privilegiados na distribuição de favores do Estado não pode ser considerado “de direita”; e 5 – quem defende ditadura (seja de que lado for) não pode ser considerado “de direita”.

Fazendo-se o pente fino entre essas conclusões e o “pensamento” dos chamados “representantes da direita brasileira”, verifica-se que, no fundo, a maioria só atende à primeira premissa. Quando muito, estão de acordo com a segunda. Brilham aqueles que conseguem, além dessas duas, conseguem enquadrar-se na quinta e última premissa. Todo o resto falha nos demais requisitos.

Veja-se, por exemplo, o caso de Jair Bolsonaro. Um sujeito que proclama aos quatro ventos suas saudades do regime militar jamais pode ser considerado “de direita”. De cara, ele não atende à quinta premissa. Considerando-se o histórico do regime militar, especialmente durante o governo Geisel, tampouco se pode dizer que tal cidadão atende à terceira e à quarta premissas,visto que foi nele que se produziu a maior onda estatizante de nossa história, assim como vicejaram grupos com íntimas ligações no aparelho estatal, dos quais usufruíam empréstimos camaradas e legislação complacente (vide os casos da Globo e de algumas montadoras do ABC). No limite, pode-se dizer que quem defende o regime militar não atende sequer à segunda premissa, dado os embates entre os generais e a Igreja, chegando ao ponto de perseguirem-se e torturaram-se padres e freis católicos.

Hoje em dia, pouca coisa mudou. Os empresários que reclamam do Governo não o fazem, em sua maioria, porque querem maior liberdade de competição ou isonomia de tratamento. Reclamam porque querem maiores subvenções (leia-se: empréstimos subsidiados do BNDES) e proteção contra a concorrência externa (leia-se: taxação de produtos importados)

Na verdade, o único ponto de identificação entre aquilo que se convencionou chamar de “direita brasileira” é a sua notória aversão ao petismo. Mesmo isso, contudo, deve ser visto com reserva, uma vez que a qualificação do governo Dilma Roussef como “de esquerda” é algo cada vez mais controverso, tendo em vista sua política recessiva e a promoção de uma política monetária que faria inveja ao mais radical dos Chicago Boys.

O grande problema desse desvirtuamento ideológico do “pensamento neoconservador brasileiro” é a sua desmoralização apriorística. Quando o sujeito se vê rodeado de personagens como Rodrigo Constantino – que disse certa vez que “Mandela impediu a guerra civil na África do Sul, mas foi só isso” – ou Olavo de Carvalho – que diz que “a inveja anti-olavética é uma doença mental” – fica muito mais fácil declarar-se como “de esquerda” do que carregar o fardo da “direita”.

Enquanto isso, a “esquerda” – ou aquilo que o pensamento político brasileiro resolveu denominar como “esquerda” – passeia lépida e fagueira, ultrapassando com menor ou maior dificuldade todas as crises que surgem pelo caminho, sem que a “direita” consiga apresentar uma alternativa viável para se contrapor a ela.

Ou a “direita” brasileira começa a se dar o respeito, ou vamos ficar presos nessa armadilha política por muito tempo ainda. Quem viver, verá.

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3 respostas para A desmoralização da direita brasileira

  1. Mourão disse:

    Boa tarde caro Senador, parabéns pelo aniversário do seu blog. Ótimo texto, do qual pode se depreender que mais do que nunca direita e esquerda são rótulos que pouco significam no mundo atual. O que importa é a posição de cada um em relação às grandes questões nacionais e internacionais, para se saber se possuem rigor e equilíbrio de pensamento ou não. Você diz bem sobre a direita brasileira, pois num país de tantas desigualdades e miséria defender posições de direita típicas europeias é ridículo. Lembro que na Europa, a direita extremada é vista (mal vista) como fascista ou neonazista e não vejo nenhum político, intelectual ou empresário de renome se dizendo de direita, ou você conhece. Opto em defender a democracia, sem adjetivos, e ser partidário da livre iniciativa, sem defender o liberalismo extremado.
    Um abraço.

    • arthurmaximus disse:

      Obrigado, Comandante. E, no fundo, é mais ou menos isso que o senhor disse mesmo: os conceitos de direita e esquerda deixaram de fazer sentido por aqui. A ver apenas como os polos antagônicos dessa relação vão se comportar daqui por diante. Um abraço.

  2. Pingback: Direita, volver, ou Um salto no escuro | Dando a cara a tapa

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