As soluções urbanas óbvias, ou As boas coisas também acontecem

Grande parte deste espaço é dedicado às críticas. Afinal, só mesmo sendo muito cego ou alienado para olhar em volta e ficar satisfeito com o mundo, em geral, e o país, em particular, no qual se vive. Invariavelmente, as críticas recaem sobre os governantes, pois são eles os responsáveis últimos pelo estado de coisas ao nosso redor.

No entanto, nem só de veneno vive este espaço. Para provar o que digo, hoje vou elogiar dois prefeitos que tiveram a coragem de remar contra a corrente para implementar uma nova modalidade de transporte público em nossas capitais: Fernando Haddad (São Paulo) e Roberto Cláudio (Fortaleza).

Não é segredo pra ninguém que nossas metrópoles são um desastre urbanístico. À exceção talvez de Curitiba – que parece caminhar a passos largos nessa direção -, todas as demais padecem, em menor ou maior grau, de transtornos de trânsito que transformam o cotidiano de sair e voltar pra casa em um verdadeiro tormento existencial.

São Paulo é o melhor retrato disso. “Estado da arte” do que se fazer de errado numa cidade, a capital paulista bate recordes sucessivos de engarrafamentos, numa estonteante espiral na qual os quilômetros de congestionamento aumentam até alcançar a distância que cobriria a estrada entre Fortaleza e Mossoró (240km).

Fortaleza, por sua vez, não fica atrás. Outrora conhecida por ser uma pacata capital na qual, em apenas 20 minutos, eram possível ir de um lado a outro da cidade sem maiores transtornos, os engarrafamentos tornaram-se cada vez maiores, a ponto de muita gente ter “importado” o costume paulista do happy hour, para fugir do trânsito nos horários de pico.

Em um caso e no outro, a resposta sempre foi a mesma. Desde os tempos de Paulo Maluf, a solução para a problemática urbana era abrir mais vias, abrir mais viadutos, construir mais túneis. Obviamente, em todos os casos o resultado foi o mesmo: vias mais largas resultavam em engarrafamentos maiores; viadutos apenas encurtavam a distância entre dois congestionamentos; e túneis somente ocultavam sob o solo a tragédia que se mostrava sobre ele.

Não é preciso ser gênio para entender a razão do fracasso dessa política urbana. Nenhuma dessas alternativas tira carro das ruas. Vias mais largas e rápidas convidam o cidadão a usar mais o carro. Mesmo quem não usa fica tentado a tomar o automóvel até para a padaria da esquina. O benefício advindo da melhoria viária resulta apenas temporário. Logo após, o de sempre: mais carros, mais trânsito, mais congestionamentos.

Eis que Fernando Haddad e Roberto Cláudio dão-se conta do óbvio: se alargar avenidas não tira carros das ruas, vamos pensar numa alternativa para diminuir o interesse dos cidadãos por automóveis. E assim surgiu a implementação das ciclovias em São Paulo e em Fortaleza.

Ciclofaixa em São Paulo

Estação de aluguel de bicicletas em Fortaleza

Como esperado, a decisão de utilizar a bicicleta como modal de transporte foi detonada pela maioria da população. Afinal, por que tirar espaço dos carros – que já é curto – para dá-los a uns poucos ciclistas? Pior: nos primeiros dias, pouca gente usava as ciclofaixas, aumentando a grita geral contra a mudança no sistema de transporte.

Se os prefeitos fossem fracos, teriam rapidamente cedido à turba. Não conviria gastar capital político com uma iniciativa que contrariava boa parte de seus eleitores, ainda mais quando pouca gente se mostrava interessada pela novidade.

Mas, ao invés de ceder à grita, Fernando Haddad e Roberto Cláudio resolvem aprofundar a implementação do modal. Estações de serviço foram colocadas em locais estratégicos. Nelas, é possível alugar a baixo custo uma bicicleta, podendo devolvê-la em outra ao final do trajeto. Além disso, faixas de avenidas seriam interditadas aos domingos, permitindo a pais e filhos trafegar tranqüilamente em longos trajetos pela cidade.

À primeira vista, tais medidas pareciam perfumaria. Ninguém acreditava que alguém fosse mudar de idéia quanto a andar de bicicleta pela cidade por conta de estações para alugar bicicletas ou domingos recreativos sobre duas rodas.

O que essas pessoas não enxergavam é que uma mudança tão radical nos hábitos da população não acontece do dia pra noite. É necessário tempo, paciência e, claro medidas de estímulo para fazer com que o sujeito deixe o carro na garagem e passe a usar a própria força motora para locomover-se.

Foi justamente isso que as estações de serviço e os passeios de domingo fizeram. A possibilidade de alugar uma bicicleta tirou do sujeito a obrigação de comprar uma (e ter de se preocupar com a manutenção dela). Os domingos recreativos devolveram aos cidadãos parte da cidade, fazendo com que eles voltassem a interagir com ela. Melhor. Quando pais levam filhos para o passeio, as crianças já vão se acostumando desde cedo à possibilidade, fazendo com que andar de um lado a outro de bicicleta não seja uma idéia assim tão estranha, como o foi para grande parte da população atual.

Entretanto, como toda boa iniciativa no Brasil, convém colocar o pé atrás. É necessário saber se a tentativa de modificar o modal de transporte terá seguimento, especialmente quando as primeiras bicicletas das estações começarem a quebrar. Se a coisa ficar somente no fogo de palha, aquele cidadão que resolveu deixar o carro em casa para ir ao trabalho de bicicleta vai voltar a tirar o automóvel da garagem, para encher ainda mais as nossas já entupidas artérias urbanas.

Mesmo assim, a iniciativa de Fernando Haddad e Roberto Cláudio é prova de que as boas coisas também acontecem; de que nem sempre as atitudes dos governantes vão na mão contrária do interesse público. Fica, portanto, o meu aplauso a ambos pela coragem de enxergar o óbvio.

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