Semana especial de aniversário – Os mais polêmicos: “O maior gênio da música clássica”

Assim como a polêmica, a música sempre foi uma constante deste espaço. É ela a responsável por quebrar a monotonia inerente à tela fria do computador e dar um pouco de vida ao soturno – mas quase nunca percebido – ambiente da Internet.

Poucos posts, no entanto, buscaram de forma tão escancarada a polêmica como o debate sobre o maior gênio da música clássica de todos os tempos. Afinal, o embate épico entre Mozart e Beethoven é caso ainda não resolvido pelos especialistas em composições sonoras. Por isso mesmo, a satisfação deste que vos escreve é ainda maior quando se considera que o segundo lugar no ranking dos mais polêmicos posts de todos os tempos do Blog é justamente o que analisa esse confronto.

O maior gênio da música clássica

Publicado originalmente em 15.11.11

Escrevo este post sabendo que, se algum adepto da música clássica baixar por aqui, vou apanhar à beça. De todo modo, já que a ordem deste espaço é dar a cara a tapa, vou atravessar a linha do desconhecido. Dentre todos os grandes compositores da música clássica, nenhum foi mais genial do que Ludwig van Beethoven.

“Ah, mas e Mozart?”

Bem, discutir Mozart e Beethoven é quase como discutir Beatles e Rolling Stones. Quem gosta de um não aceita (ou não gosta de admitir) a genialidade do outro.

Contra Beethoven, pesa o fato de ter produzido uma quantidade de músicas bem menor do que Mozart. Mas onde os outros vêem vantagem do austríaco, eu vejo superioridade do alemão.

Mozart compunha sinfonias em questão de minutos, é fato. Aliás, grande parte de sua genialidade é atribuída a isso: à capacidade de escrever música em profusão quase infinita, com uma assombrosa rapidez. E – também não há como negar – suas composições eram de excelente qualidade.

Beethoven não. Demorava-se sobre suas partituras. Escrevia vagarosamente suas sinfonias, de tal modo que, mesmo vivendo 20 anos a mais do que Mozart (morreu com 56, enquanto Mozart morreu com 35), escreveu apenas 9 sinfonias, enquanto Mozart compôs mais de 40. Isso para não falar das sonatas e das suítes musicais.

Mesmo assim, é justamente nesse vagar que talvez residisse a superioridade de Beethoven sobre Mozart. Enquanto Mozart compunha freneticamente, como se quisesse sempre ter algo novo a apresentar, independentemente de ser a melhor coisa que poderia fazer, Beethoven ia e vinha nas suas partituras, analisava minuciosamente cada nota, e só lançava ao público quando estava certo de que aquela era a melhor versão possível da composição. Seu raciocínio era o seguinte: a menos que a partitura trouxesse algo surpreendente e genuinamente revolucionário, não valeria a pena tocá-la em público. Em termos atuais, Mozart era meio “Robert”; Beethoven, “para cada mergulho, um flash”.

Na verdade, a despeito da produção em massa, a música de Mozart torna-se um tanto comum após se ouvirem diversas obras. Isso, aliás, é confirmado à boca pequena por especialistas. É como um segredo de polichinelo da música clássica: Mozart é um gênio, mas sua música é aborrecida.

Em que pese a genialidade, Beethoven eram meio recalcado. Melhor explicando: Beethoven era muito traumatizado pelo fato de ter nascido pobre. Por muito tempo valeu-se de seu “van” para atribuir a si mesmo fumos de fidalgo. Caiu em desgraça quando se revelou que não passava de um sujeito da malta, sem qualquer origem aristocrática. Talvez por isso, tenha se dedicado cada vez mais a alcançar o estrelato por meio de sua música.

Quanto ao público em geral, Beethoven  sofre do mesmo mal do Pink Floyd. Para boa parte da população mundial, o grupo inglês é limitado a Another Brick in the Wall – part II. Já Beethoven não passa do primeiro movimento de sua 5a. sinfonia (o famoso tan-tan-tan-taaaaannn). É uma pena. Pois há muito mais para se conhecer do gênio alemão.

Pra começar, mesmo da 5a. sinfonia o primeiro movimento não é o melhor. O segundo também é excelente, e o quarto, a despeito de ser o menos entusiástico, ainda assim é superior à média. Mas nenhum deles alcança a grandiosidade do terceiro movimento. Abaixo, uma palhinha na magistral interpretação de Arturo Toscanini:

Já com alguma fama nas costas, Beethoven resolveu dedicar uma de suas composições a outro gênio (político) da época: Napoleão Bonaparte. Sua terceira sinfonia, que ganhou o epíteto de Eroica, é também uma de suas mais conhecidas. Ao saber que Napoleão se autoproclamara imperador na França, Beethoven riscou toda a partitura. Imagine você o desgosto dele ao saber que a composição feita para quem representava o triunfo da democracia sobre o absolutismo tinha virado a casaca. Abaixo, um trechinho da Filarmônica de Berlim sob a regência de Claudio Abbado:

Fora das sinfonias, uma de suas composições mais conhecidas é Für Elise, canção preferida de 11 em cada 10 serviços de atendimento que mandam você aguardar enquanto a atendente “verifica o sistema”:

Já no final da vida, Beethoven passou a sofrer cada vez mais com a surdez, algo que já o acompanhava desde os 30 e poucos anos. Ao contrário do que muita gente diz, ele não ficou completamente surdo. Apenas seu espectro de audição ficou imensamente reduzido. Ele só conseguia ouvir notas muito altas ou muito graves. Talvez por isso mesmo, sua 9a. sinfonia é tão, digamos, “extremosa”.

Aliás, foi na 9a. sinfonia que Beethoven deu sua última contribuição à revolução musical. Pela primeira vez, um movimento sinfônico seria acompanhado por um coral. Baseando-se num poema de Friedrich Schiller, “Ode à Alegria” seria o final glorioso de sua última sinfonia. Abaixo, vai o quarto movimento, na magistral interpretação de von Karajan, como convite a conhecer um pouco mais esse gênio da música clássica:

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