A conquista da Copa Davis pela Suíça

Quem gosta de tênis certamente ficou sabendo da final da Copa Davis ocorrida no final de semana passado em Lille, na França.

Para os não familiarizados com o esporte, a Copa Davis está para o tênis como a Copa do Mundo está para o futebol. É o torneio de seleções mais representativo e importante na arte de usar uma raquete para jogá-la do outro lado da quadra. Ao contrário dos jogos “normais”, nos quais os pontos são atribuídos individualmente aos jogadores – “Game, Set and Match Djokovic”, por exemplo -, na Davis os pontos são computados para as seleções – “Game, Set and Match Brazil”.

Disputados em melhor de cinco partidas, a Copa Davis reúne um time de cada país para disputar quatro jogos de simples e um de duplas. No primeiro dia, jogam-se dois jogos de simples, seguidos pelo jogo de duplas e terminando com mais dois jogos de simples. Os jogadores, claro, alternam-se nas partidas, permitindo-se ao técnico da seleção alterar a escalação do jogo até uma hora antes da disputa.

A final disputada em Lille reuniu alguns ingredientes que deram um toque de dramaticidade ao evento. Uma semana antes, os dois suíços mais bem colocados no ranking da ATP, Roger Federer e Stanislas Wawrinka, fizeram um jogo duríssimo na semifinal do ATP Finals, uma Copa do Mundo individual de tênis. Federer conseguiu uma virada histórica, mas ao custo de sair com uma lesão nas costas que o impediu de jogar a final contra Novak Djokovic.

Como desgraça pouca é bobagem, durante a partida houve um entrevero entre Wawrinka e a mulher de Roger, Mirka Federer. Mirka teria chamado Wawrinka de “Bebê Chorão”, após este reclamar do barulho feito por ela antes dos saques disparados pelo marido em quadra. Ao entrevero seguiu-se uma ríspida discussão entre os dois jogadores depois da partida, presenciada por ninguém menos que John McEnroe, que fez questão de espalhar o bafafá para o mundo inteiro.

A Suíça chegava à final, portanto, com dois jogadores física e mentalmente exaustos, com menos de uma semana de descanso entre duas decisões importantes e com risco concreto de racha entre os dois jogadores da equipe. Pior que isso, só o fato de terem de jogar no saibro, piso no qual Federer sempre foi mais vulnerável, contra uma equipe que treinava há pelo menos duas semanas para enfrentá-los.

No primeiro dia, Wawrinka, um tenista conhecido pela inconstância mental, passou por cima do tenista nº. 1 da França, Tsonga, em rotundos 3 sets a 1. No jogo seguinte, no entanto, Federer foi atropelado por Monfils em inapeláveis 3 sets a 0.

A disputa estava empatada, e o prognóstico para a Suíça não era nada animador. A derrota de Federer foi tão acachapante que deixara dúvidas sobre se teria condições de enfrentar os outros jogos. Além disso, no sábado haveria o jogo de duplas, e a dupla francesa era favoritíssima para bater os duplistas suíços, Michael Lammer e Marco Chiudinelli, dois figurantes que jamais estiveram sequer no Top 100 do ranking de duplas da ATP. Com quase certos 2×1 contra no placar, restaria à Suíça uma possível, mas improvável, virada no último dia, com Federer e Wawrinka vencendo seus dois últimos jogos.

Nesse momento, brilhou o técnico da Suíça, Severin Luthi. Bancando uma decisão arriscadíssima, Luthi trocou na última hora a dupla que entraria em quadra no sábado, colocando Federer e Wawrinka para enfrentar a dupla francesa. Tratava-se de uma decisão arriscada por três motivos: 1 – Não se sabia até que ponto o entrevero da semana anterior influenciaria uma dupla formada por Federer e Wawrinka; 2 – Não se sabia até onde a lesão de Federer o impediria de jogar em alto nível, ainda mais depois da varada que levou de Monfils na sexta-feira; 3 – Se perdessem nas duplas, os suíços poderiam dar adeus ao título, pois os dois jogadores teriam de ganhar os jogos de simples do domingo depois de terem jogado seguidamente na sexta e no sábado.

Campeões olímpicos de 2008, Federer e Wawrinka tiveram de mostrar em quadra que a rusga da semana passada não tinha deixado cicatrizes. Com Wawrinka jogando o fino, a dupla suíça venceu por 3×0, deixando a esquadra helvética a uma vitória de uma conquista inédita.

No domingo, Federer entrou em quadra disposto a fazer história. Contando com a substituição de última de Tsonga – uma carne de pescoço – por Gasquet – um freguês de carteirinha -, o suíço não deu chance pro azar e detonou o adversário por 3 sets a 0. A disputa acabava em categóricos 3×1. Para Roger Federer, líder de quase todas as estatísticas possíveis no tênis mundial, o troféu tornou ainda menor a já diminuta lista de conquistas ainda não alcançadas.

A essa altura do campeonato, você que é brasileiro e não se interessa por tênis deve estar se perguntando: “Sim, mas e daí?”

E daí duas coisas.

A final foi realizada no estádio de futebol de Lille. Com adaptações, claro, mas ainda assim suficiente para receber mais de 27 mil espectadores, o maior público da história do tênis mundial. Quando se fica sabendo que uma partida de um esporte considerado elitista como o tênis consegue reunir mais gente do que a maioria dos jogos do maior esporte nacional, o futebol, alguma coisa tem de ser repensada.

A segunda coisa a se pensar diz respeito ao próprio feito. A Suíça ganhou uma das mais importantes competições do esporte mundial contando com uma população menor do que a do Ceará. Mesmo sendo o tênis apenas o quinto esporte mais popular do país, há dois suíços no Top 5 do ranking da ATP (Federer é o 2º e Wawrinka, o 4º).

Sempre pode-se alegar que, assim como as trufas brancas do Piemonte, fenômenos como Roger Federer surgem do nada, sem que se possa antecipar onde e como eles brotarão. Mas Wawrinka não é nenhum fenômeno. É um jogador excelente, mas, antes de tudo, um batalhador que lutou muito para chegar lá.

A conquista da Davis pela Suíça, portanto, deveria levar à seguinte reflexão: por que o Brasil, um país de dimensões continentais, com riqueza em abundância e uma imensa e jovem população, não consegue produzir ídolos esportivos na mesma proporção da diminuta Confederação Helvética?

Eis aí mais um mistério a se juntar aos tantos deste mundo.

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