Mão na bola ou bola na mão?, ou Pelo uso da tecnologia no futebol

Desde o 7×1 contra a Alemanha na semifinal da Copa do Mundo, discutir futebol no Brasil tornou-se um exercício de futilidade. De que adianta travar discussões infindáveis sobre o último Fla x Flu se o país há muito deixou de ser o celeiro de craques de outrora? De que vale discutir se Fulano é melhor do que Beltrano se o nível do Brasileirão não é lá muito superior ao do campeonato tibetano?

Diante da pasmaceira geral nos gramados e da evidente queda de interesse do público pelos jogos televisionados, restou aos cartolas ressuscitar uma antiga discussão, que insiste em reaparecer de tempos em tempos: a regra da mão na bola. Como a mídia esportiva tem de se agarrar em qualquer pedaço de madeira para continuar vendendo seu pão, todo mundo embarcou nessa. Nas últimas rodadas, é só o que se discute: foi pênalti ou não foi pênalti?

Toda a polêmica nasce na Regra 12 do Futebol. Ela dispõe sobre as “faltas e condutas antidesportivas”. No meio de carrinhos, pontapés e rasteiras, uma singela oração determina toda a confusão sobre a parte mais extrema de nossos membros superiores: é vedado ao jogador “tocar a bola com as mãos deliberadamente, exceto o goleiro dentro de sua própria área penal”.

Evidentemente, em um esporte no qual os pés ditam o ritmo do jogo, o toque do instrumento da partida – a bola – com a mão deveria ser vedado. E, verdade seja dita, a regra é de uma clareza ímpar. O problema, como sempre, reside na interpretação que se faz dela.

Quando pequenos, qualquer um de nós que jogou pelada de rua aprendeu a regra segundo a qual, se o sujeito leva a mão à bola, com a intenção de tocá-la, é falta. Por outro lado, se a bola toca a mão do sujeito contra a sua vontade, de maneira involuntária, não há falta. Daí a redução de toda a atividade hermenêutica em torno da regra à singela proposição: foi mão na bola ou bola na mão?

Pouca gente sabe, mas  regras do futebol são as mesmas desde que a International Board foi criada, no final do século XIX. São apenas 17 regras, que, a despeito de eventuais atualizações, permanecem na sua essência as mesmas. Junto com a facilidade com que se pode jogar o futebol – basta improvisar uma bola e traves -, é a “segurança jurídica” que permitiu a esse esporte tornar-se o mais popular do planeta.

Por que, então, a confusão?

Não tenho aqui dados estatísticos, mas desconfio que a polêmica toda começou no final da década de 80 e começo da década de 90. Até então, a proposição para os jogos de pelada era válida igualmente para jogos oficiais: a diferença entre “mão na bola” e “bola na mão” dava-se consoante a intenção do agente na hora de movimentar o braço.

Todavia, árbitros e comentaristas de arbitragem dos mais diversos países começaram a desenvolver teorias curiosas, para resolver questões que eram de uma simplicidade atroz. Para “resolver” os casos em que a bola batia na mão do defensor depois de um chute ou de um cruzamento, inventaram o esdrúxulo conceito de “ampliar o espaço corporal”.

Sob esse prisma, se o jogador abrisse os braços, mesmo sem a intenção de tocar na bola, deveria ser marcada falta, pois ele estaria “ilicitamente” ampliando as possibilidades de que a bola tocasse na sua mão. Isso obriga zagueiros e laterais a “colar” o braço no corpo, em um atitude contra-intuitiva, considerado o movimento natural do corpo ao correr e ao pular.

O fato é que, desde que resolveram bulir com tão simples entendimento, o problema da bola na mão só vem piorando. Agora, nem atendendo ao conceito de “não ampliar o espaço corporal” o cidadão escapa da marcação da penalidade. Como se assistiu nas últimas rodadas do Brasileiro, até mesmo quando o sujeito tinha o braço grudado para proteger a barriga de um tiro frontal foi assinalado pênalti.

Melhor seria se o pessoal do futebol voltasse às priscas eras, quando tudo era resolvido com base na intenção do agente. E, mesmo assim, somente em casos nos quais o sujeito pretende interceptar a trajetória da bola. Imagine, por exemplo, um sujeito numa barreira que vê uma bola dirigindo-se furiosamente em direção ao seu rosto. Será pênalti se o cara colocar as mãos para defender a face? Ou ele terá de aguentar a pancada e ir a nocaute para impedir a marcação da penalidade?

No fundo, no fundo, independentemente da posição que se adote, já passou da hora da adoção mais aguda da tecnologia no futebol. Se a qualidade da arbitragem mundial já é duvidosa, a daqui deixou de ser abaixo da crítica há muito tempo. Noves fora a falta de profissionalização dos árbitros, certas coisas são simplesmente impossíveis de serem percebidas no fragor da hora, com 22 jogadores reclamando e milhares de torcedores xingando a sua mãe.

A melhor alternativa seria adotar, assim como no tênis e, mais recentemente, no vôlei, o uso de câmeras para resolver as malditas polêmicas que envenenam o resultado das partidas. A bola foi dentro ou foi fora? O bloqueador tocou ou não tocou na rede? Tudo isso acaba quando o tenista ou o técnico levantam a mão e “desafiam” a marcação da arbitragem. Depois de visto no replay, uma abraço: ou a marcação é mantida ou é revertida, sem direito a choro nem vela.

Com direito a 2 “desafios” por tempo de jogo, acredito que o esporte ganharia muito ao deixar de lado essas polêmicas inúteis sobre a obediência das regras em campo. Quem sabe assim pudéssemos passar a nos dedicar mais àquilo que realmente importa: a qualidade do futebol praticado no Brasil.

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