Religião x Eleição

Eu sei que os temas eleitorais já devem estar dando no vosso saco, mas prometo que este será o último da semana.

A mais nova polêmica da corrida eleitoral diz respeito ao uso da religião para fins eleitorais. Depois de ser “chamadas às falas” pelo pastor Silas Malafaia, Marina alterou seu programa de governo, alegando que a primeira versão tinha problemas de diagramação. Desde então, a rede foi inundada, de um lado, com acusações de fundamentalismo religioso por parte de Marina, e, do outro, por tentativas de associar propostas do governo a meras manobras de oportunismo eleitoral. Com o perdão do trocadilho, convém recomendar: devagar com o andor, porque o santo é de barro.

Na época do Brasil Império, a discussão nem se colocava. O Brasil era um estado confessional e, no final das contas, não havia eleições regulares para o mais alto cargo da Nação. Quando veio a República, tampouco a religião assumiu papel de relevo nas discussões políticas. Com mais de 90% da população católica, ninguém chegava na eleição discutindo a fé do sujeito.

Tal situação perdurou até os anos 60. Embora o catolicismo tivesse deixado pra trás seus ares de quase unanimidade nacional, os seguidores da Igreja Católica ainda eram ampla maioria no país. Depois, como todo mundo sabe, vieram os militares e passaram vinte e seis anos sem permitir que o povo escolhesse seu presidente.

Tudo isso mudou em 1989. Sarney deixava a presidência e, do lado das alternativas oposicionistas, destacaram-se dois candidatos: Collor e Lula. O primeiro, representante das oligarquias, dos grandes grupos e do conservadorismo mais reacionário. O segundo, oriundo dos movimentos sociais, amparado no sindicalismo militante e partidário de um progressismo quase juvenil.

Na hora do embate eleitoral, além de associar Lula ao “perigo vermelho”, Collor denunciava o candidato como PT como representante de uma coligação “atéia”, que renegava os “valores cristãos da sociedade brasileira”. No limite, chegou até a usar o aborto uma ex-namorada como forma de atacar Lula. Pode ser que Lula não tenha perdido por causa disso, mas, pela primeira vez em nossa história, a religião fora usada como fins explicitamente eleitorais.

Desde então, a democracia brasileira amadureceu e a questão foi sendo colocada pouco a pouco de lado. Para ilustrar o tamanho da irrelevância da religião nos pleitos presidenciais, basta dizer que Fernando Henrique Cardoso passou incólume ao curioso episódio no qual Boris Casoy lhe perguntou se acreditava em Deus, e El Rey respondeu que ambos haviam combinado nos bastidores que ele não formularia semelhante questão. Agora, 20 anos depois disso, muita gente faz força para que a religião volte com força total para o centro do cenário eleitoral.

A questão, contudo, é: até que ponto a decisão acerca do candidato em quem vou votar deve se dar com base nas suas preferências religiosas?

Que cada candidato tem o direito de professar a fé que bem entender, ninguém contesta. No entanto, a Constituição brasileira assegura a laicidade do Estado. Embora reconheça a existência de um ser superior a governar os desígnios do mundo, nosso ordenamento jurídico renega o favorecimento de qualquer entidade religiosa. Por isso mesmo, sob uma ótica estritamente formal, a fé dos candidatos não deveria ser considerada como fator decisivo para o voto.

Todavia, cada religião traz consigo uma série de valores aos quais, presume-se, o seu seguidor deve aderir. Pode até ser que o cidadão não seja o mais fiel cumpridor dos seus preceitos religiosos, mas ela é, sem dúvida, um traço formador de sua personalidade individual e, por conseguinte, de sua ação com sujeito. Sob esse prisma, saber a religião de um candidato é quase uma obrigação para que o cidadão possa definir o seu voto.

O que torna a discussão religioso estéril no atual cenário eleitoral é o fato de que ela se ampara em reducionismos desqualificantes. De um lado, critica-se Marina pelo fato de ser evangélica e supostamente contra a ciência. Na outra ponta, detona-se Dilma por ser atéia e a favor do aborto. A ninguém ocorre que o sujeito pode ser ateu e ainda assim contestar os métodos científicos, assim como pode ser um fervoroso devoto de Jesus Cristo e mesmo assim defender o direito da disposição da mulher sobre seu próprio corpo.

A bem da verdade, a política brasileira poderia muito bem passar sem que as preferências religiosas dos candidatos fossem colocada no centro da discussão. Mas, uma vez que isso tenha ocorrido, que pelo menos se discuta a religião com um mínimo de racionalidade. Crentes e ateus de todo o país agradecem.

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