Autópsia de uma derrota

Certa vez, o Paulo Francis ouviu de um amigo que Tônia Carrero, uma atriz com a qual ele adorava implicar, dissera alguns impropérios contra ele. Fulo da vida, tomou a direção da redação e sentou a bunda na cadeira. Com os dedos batendo devagar, mas com muita firmeza (fruto da raiva), datilografou uma das suas mais cruéis e deselegantes colunas.

No dia seguinte, o mundo artístico e jornalístico procurava entender como é que Francis, um sujeito pacato e normalmente amável, escrevera tal coisa. Fora uns sopapos tomados dois dias depois de Paulo Autran, que foi à redação do jornal vingar no braço a honra da amiga ferida, Paulo Francis não sofreu maiores conseqüências. O maior castigo foi aquele imposto a si mesmo. Nunca mais Francis se perdoaria por ter cometido tamanha indelicadeza e amargaria para sempre o lamento de não ter “dormido sobre” a coluna antes de decidir publicá-la. Tal é a razão de ter aguardado o dia seguinte para, com a cabeça mais fria, escrever sobre o jogo de ontem.

Que o Brasil amargou a pior derrota de sua história, ninguém discute. Que Felipão, a CBF e parte dos jogadores também são diretamente responsáveis pela derrota, tampouco alguém discorda. A grande questão, no entanto, é entender como chegamos a uma situação na qual a única seleção pentacampeã do mundo, decantada como modelo para todas as outras desde 1958, jogando em casa uma semifinal de Copa do Mundo, foi superada de forma tão devastadora e inapelável para um time que está longe de ser um dos melhores de todos os tempos.

A tendência inicial de quem é brasileiro e assistir ao jogo é detonar a tudo e a todos e “pagar geral”; nada presta, todos os jogadores são ruins e o técnico é uma besta. Infelizmente, o buraco é mais embaixo.

Em primeiro lugar, deve-se fugir dos reducionismos. É inútil pensar que um placar de 7×1 acontece por obra do acaso, ou fruto de erros individuais, como a má escalação para a partida. Como tudo na vida, não há uma única explicação para o resultado. Trata-se de uma tragédia que deita raízes muito mais profundas no futebol brasileiro, que antecedem em pelo menos três décadas o fatídico 8 de julho de 2014.

Em segundo lugar, alguns autoenganos devem ser desde logo afastados. Por exemplo: Neymar e Thiago Silva fizeram falta, óbvio, mas o Brasil perderia de qualquer jeito, mesmo que eles estivessem em campo.

Para compreender, afinal, como se produziu o desastre, é necessário segmentar a sucessão de acontecimentos que conduziram ao fracasso de ontem para, com base nisso, buscar soluções para sair do buraco.

Vamos, portanto, analisar as questões macro, meso e micro, para saber como os alemães enfiaram 7 gols no Brasil de ontem.

Questões macro:

Desde a derrota em 1982, o Brasil resolveu adotar a filosofia de que é melhor “jogar feio e ganhar do que jogar bonito e perder”. Até aí, nada de mais, se isso não influenciasse a formação dos jogadores. Passou-se a ter a idéia de que, para defender bem, era necessário ter um meio de campo “pegador”, percepção aguçada pela escalação da seleção de 82, na qual todos os “volantes” jogavam muita bola (Cerezo e Falcão à frente), mas não eram exímios marcadores.

Essa mudança de estilo atingiu a base, e não demorou muito para o Brasil ter como ídolos volantes “marcadores”, do qual o maior exemplo é Dunga. Pior. A “especialização” acabou fazendo com que o meio de campo se dividisse entre “volantes que marcam” e “meias que atacam”.

Com o tempo, os “meias que atacam” passaram a jogar mais próximo ao ataque, e se transformaram nos famosos “meias-atacantes”. Resultado: o Brasil não produz mais um meia que saiba ocupar o espaço, organizar o meio de campo e fazer a ligação entre ataque e defesa desde Djalminha, no meio dos anos 90.

Daí porque é injusto em certa medida criticar Felipão pela escalação da seleção. Diga-me: quem, além dos selecionados, você convocaria para o time? Reclamou-se muito de Fred, mas qual outro jogador poderia desempenhar um papel digno como centroavante? Pato? Me poupe, Salgadinho.

Fora a inclusão de um ou outro nome, não há nenhum craque incontestável que tenha ficado de fora, como foi o caso de Zico em 74 e Falcão em 78. Os 23 que integraram a seleção de 2014 são mais ou menos aquilo que se tem; não há grandes alternativas fora desse grupo. Meia, então, não há nenhum, a menos que se queira incluir Ganso na contagem. Mas mesmo ele não joga uma bola decente há pelo menos três anos.

Questões meso:

Todo mundo está mais ou menos de acordo quanto ao time que foi convocado. Para além disso, o êxito na Copa das Confederações devolveu à seleção a noção de um time organizado. Havia um esquema tático definido e jogadores cientes do papel que cabia a cada um em campo.

O problema, claro, é que ninguém pode ir para uma competição do nível de uma Copa do Mundo com uma só bala na agulha. É óbvio que as outra seleções passaram o último ano estudando o time brasileiro e procurando soluções para neutralizar o esquema de blitz inaugurado em 2013. Faltou a Felipão, portanto, estudar alternativas de jogo – e, conseqüentemente, de escalação – para a hipótese de o “Plano A” não dar certo.

Além disso, mesmo o time de hoje não era o mesmo do da Copa das Confederações. Naquele time, jogava-se em um 4-2-3-1 (Dani Alves, Thiago Silva, David Luiz e Marcelo; Luiz Gustavo e Paulinho; Hulk, Oscar e Neymar; e Fred). A marcação sob pressão dava-se com o avanço compacto dos três meias-atacantes e dos dois volantes. Somando-se a Fred, havia portanto seis jogadores do Brasil marcando geralmente seis adversários (quatro zagueiros e dois volantes). Estabelecia-se quase uma marcação individual no campo do adversário. Eis a razão pela qual o Brasil conseguia tantas vezes roubar a bola no campo de ataque e chegar rapidamente ao gol.

Na Copa do Mundo, houve uma mudança drástica – e desastrosa – nesse esquema. Luiz Gustavo foi recuado para jogar quase como um terceiro zagueiro, dois meias-atacantes ficaram muito abertos nas pontas (Neymar e Hulk) e Oscar subia em linha reta para se aproximar de Fred. Com isso, Paulinho – e, depois, Fernandinho – ficavam sozinhos na área do grande círculo. Ficamos, assim, como um esdrúxulo 5-1-4. Daí porque o time ficou sem meio de campo em todos os jogos e a única alternativa na construção das jogadas eram os lançamentos diretos da defesa para o ataque.

Questões micro:

Chegando enfim ao jogo, é hora de compreender como se construiu um placar tão elástico numa fase tão avançada de Copa do Mundo, contra uma seleção tradicional que jogava em casa.

Há de se entender, primeiramente, que a Alemanha também joga colocando pressão na saída de bola. Para combater um time assim, é necessário ter um meio de campo forte – olha ele aí de novo! -, que troque passes desde a defesa, conduzindo a bola para a frente e “empurrando” a marcação adversária para o campo dela. O Brasil não tinha isso.

Pra piorar, Felipão optou por uma tática suicida, colocando Bernard no lugar Neymar. Além de não ser o jogador mais indicado para a ocasião, Felipão jamais havia treinado aquela formação. Jogamos uma semifinal de Copa do Mundo com um time que jamais havia jogado junto. Era óbvio que não podia dar certo.

Mas esse não foi o único erro de Felipão. Ao colocar Dante na posição que originalmente joga no Bayern de Munique, Felipão teve de inverter David Luiz de posição. O zagueiro honrado e voluntarioso notava o vazio no meio e saía pra frente para atuar quase como um volante. Com isso, deixava um buraco atrás, com apenas três marcadores (Dante, Maicon e Marcelo) para combater cinco alemães (os atacantes Klose e Müller, e os meias Khedira, Kross e Scheweinsteiger). Não é difícil, portanto, entender como os alemães chegavam a toda hora fazendo linha de passe contra uma impotente defesa brasileira.

Daí pra frente, o que se assistiu foi um baile alemão. Depois do primeiro e do segundo gol, os alemães sentiram o gigante cambaleando e resolvem tombá-lo de vez. Note que, no terceiro, no quarto e no quinto gols, a jogada nasce da tomada de bola na intermediária brasileira e o avanço rápido e fulminante contra uma defesa em inferioridade numérica.

Por isso mesmo, como bem observou Juninho Pernambucano – sempre ele -, é errado dizer que o Brasil teve um “apagão” de 10 minutos e que foi esse “apagão” o responsável pela derrota. Não houve “apagão”. O time já entrou “apagado”. Se o Brasil não tomasse 5 gols na primeira meia hora do jogo, tomaria na segunda ou no terço final, tal era a superioridade alemã na partida.

Para quem duvida, basta rever o que aconteceu nos nos primeiros 15 minutos do segundo tempo. Como os alemães tiraram o pé para evitar uma humilhação maior, o Brasil achou que poderia jogar de igual pra igual. No momento em que a Alemanha voltou a acelerar o jogo, fez mais dois, sem qualquer dificuldade.

No final das contas, a verdade é que o time que chegou aos trancos e barrancos à semifinal jamais foi páreo para um time minimamente organizado como o alemão. Que a tragédia de ontem sirva pelo menos para promover uma reflexão mais profunda no futebol brasileiro. Quem sabe, daqui a 10 anos, estejamos todos comemorando o hexa que não veio em casa.

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