A crise na monarquia espanhola

Um assunto que acabou passando batido na última semana foi a abdicação do Rei Juan Carlos, da Espanha. Mas, como aqui todo dia é dia de tratar de assuntos esquecidos, vamos a ele. Para explicá-lo, no entanto, é preciso voltar um pouco no tempo.

Desde a sua unificação, em 1492, até o século XX, a Espanha sempre foi uma monarquia. Salvo pelo breve período de um ano em meados do século XIX, os espanhóis nunca haviam experimentado um regime republicano. Tudo mudou quando, após sofrer uma derrota fragorosa nas eleições municipais, o Rei Alfonso XIII resolveu marcharse e entregar o país nas mãos da esquerda.

Daí pra frente, a história é conhecida. A República foi um fracasso, comunistas, anarquistas, fascistas e mais alguns “istas” não chegaram a consenso algum e o resultado foi a Guerra Civil Espanhola. O trauma espanhol quanto a regimes eletivos e temporários foi tão grande que a expressão armarse la República tornou-se sinônimo de “armar confusão”.

Com o fim da Guerra Civil e da II República, assume Francisco Franco, com o curioso título de Caudillo de España por la gracia de Diós. 40 anos de ditadura franquista levaram a Espanha de volta ao século XVII, com direito a perseguições políticas, prisões arbitrárias e nenhum direito civil respeitado.

É aí que entra Juan Carlos. Neto de Alfonso XIII, Juan Carlos se aproximara de Franco, a ponto de casar-se com sua neta. Da linhagem confessadamente franquista, Juan Carlos teve de jurar lealdade eterna ao ditador espanhol. Daí para ser apontado pelo próprio Franco como seu sucessor constitucional foi apenas um pulo.

A primeira coisa a compreender no caso espanhol, portanto, é que Juan Carlos não era um elemento de democracia na ditadura franquista, mas um elemento franquista na inevitável abertura democrática que se seguiria à morte do caudilho. Mal comparando, Juan Carlos esteve para a Espanha como José Ribamar (mais conhecido como Sarney) esteve para o Brasil. Era visto mais como um elemento para assegurar uma transição política sem caça às bruxas do que propriamente uma figura proeminente dos novos tempos.

Bem ou mal, todavia, Juan Carlos conseguiu equilibrar-se nessa tênue linha que separa o líder de um novo regime da figura controversa do regime anterior. Com a resistência à frustrada tentativa de golpe militar em 1981, Juan Carlos conseguiu arregimentar a simpatia do povo espanhol, simpatia que só fez crescer no boom econômico que se seguiu, especialmente nos anos 90 e começo deste milênio.

Todavia, a crise de 2008 se abateu de maneira particularmente grave sobre a Espanha. Se antes os níveis de desemprego já eram muito altos para uma economia desenvolvida, depois da quebra do Lehma Brothers eles atingiram níveis obscenos. Mais de um quarto da população não possui trabalho, índice que sobe para mais da metade quando se considera apenas os jovens com menos de 25 anos.

Em um cenário tão politicamente explosivo, Juan Carlos manobrou-se como um elefante em loja de porcelanas. No meio de uma crise movida por suspeitas de corrupção do genro, saiu para caçar elefantes em um sáfari africano. Se isso por si só seria motivo de constrangimento, imagine quando se descobriu que a viagem fora paga com dinheiro do contribuinte espanhol. Pior que isso, só mesmo a constatação de que Sua Majestade era presidente honorário do Fundo Mundial para a Natureza.

Daí em diante, o que se assistiu foi um monarca incapaz de reverter a onda negativa que se formou contra ele. Mesmo contando com apoio sólido no atual governo parlamentar – formado pelo direitista PP -, Juan Carlos viu a insatisfação popular aumentar e a pressão para que passasse o trono ao se filho, Felipe IV, crescer.

A abdicação, entretanto, teve o efeito contrário. Ao invés de amainar a contestação ao regime, fez estourar manifestações de rua pedindo o fim da monarquia espanhola. Em um ambiente já envenenado pela crise econômica sem fim, a sua renúncia ao trono pode ter sido a gota d’água numa panela que estava prestes a explodir.

Juan Carlos pode ter pensado que sua abdicação estancaria o processo de sangria da monarquia espanhola. Sem querer, pode ter encurtado sua existência. Vamos ver se os espanhóis vão armarse la República de novo.

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