A questão das “homenagens” às personalidades públicas

Ontem saiu a notícia de que o Deputado Federal Paulo Maluf foi condenado por improbidade administrativa e, em princípio, ficaria inelegível por cinco anos. A condenação seria decorrente de desvios e superfaturamentos no Complexo Viário Ayrton Senna, em São Paulo.

Não quero aqui entrar no mérito da condenação, até porque não li os autos. Tampouco me importa saber se Maluf vai conseguir ou não concorrer no ano que vem, embora fosse uma boa discussão entender como um sujeito como ele precisa ser impedido pela Justiça de concorrer porque, do contrário, é eleito. Interessa-me, na verdade, um aspecto imperceptível da notícia, quase desimportante para a maioria da população: o nome da obra acusada de superfaturamento – Complexo Viário Ayrton Senna.

Nada contra o grande Ayrton, que fique bem claro. O problema é saber se é justo associar o nome do maior ídolo do automobilismo nacional a um empreendimento viário que ficou marcado pelo signo da corrupção.

Como a obra foi inaugurada com Senna já morto, provavelmente ninguém se perguntou se ele gostaria de receber a homenagem. Da mesma forma, como Maluf estava, à época, no auge da popularidade, pouca gente deve ter se indagado se Senna concordaria em receber uma láurea vinda dele.

A associação de nomes de pessoas públicas a obras de todos os tipos no Brasil virou uma praga. De tão arraigada nos costumes nacionais, pouca gente se dá conta do absurdo que isso representa.

É provável que o mau hábito tenha nascido por conta do personalismo que sempre caracterizou nossa política. Afinal, no Brasil de todos os tempos, nenhum governo fez nada. Tudo que é construído pelo Poder Público é identificado como “obra do tempo de Cicrano” ou, então, designando-se simplesmente que “Foi Fulano quem fez”. Atribui-se a paternidade das obras públicas aos governantes como se tivessem sido eles mesmos os responsáveis por misturar a água com o cimento. Infelizmente, o buraco é mais embaixo.

Como nada acontece de graça na política nacional, esse costume tem o propósito evidente de render dividendos eleitorais para os ocupantes de cargos públicos. Para que o povo não se esqueça de quem foi o responsável pela construção, tasca-se o nome do sujeito na obra. E tome nome de deputado, governador, senador e presidente em escolas, viadutos, hospitais e até mesmo presídios.

O problema é que, com o batismo de toda obra, o sujeito acaba tendo seu nome associado ao destino da coisa batizada. No caso de Ayrton Senna, por exemplo, um sujeito reconhecidamente íntegro e correto, teria ele concordado em vida em ter seu nome associado a um complexo viário em São Paulo? Possivelmente sim. Teria sido Senna ao menos um eleitor de Maluf? Provavelmente não. De uma forma ou de outra, seu nome impoluto estará agora eternamente associado a uma obra sinônimo de roubalheira.

Quando a atribuição do nome fica restrita a escroques do cenário nacional, vá lá; quem pariu Mateus que o embale. Se o nome do deputado ficar associado a uma escola que não tem professores ou telhados, ou o governador batizar um presídio no qual os detentos são tratados como bicho, problema deles e de seus descendentes. Mas quando a obra é associada a um ídolo nacional, como Senna, quem paga o pato da associação indesejada do nome?

A vaidade curtida em vida pela associação de seu nome a uma obra pública pode reconfortar um pouco o ego da pessoa, mas o sujeito tem de ter em mente que não vai viver para sempre. Por isso mesmo, a preocupação deveria ser não o gozo imediato da fama, mas o risco de ter a reputação associada a uma construção cujo destino o sujeito não domina.

O cenário ideal seria impedir, de forma ampla, geral e irrestrita, a associação de qualquer nome a qualquer obra pública. No entanto, se nem mesmo a lei que restringe tal possibilidade ao nome de pessoas falecidas é respeitada, talvez fosse mais crível acreditar que chegará um dia no qual nossos ídolos – e seus descendentes – se darão conta de que o preço cobrado pela patranha é demasiadamente alto para compensar a massagem no ego.

Ficaríamos, sem dúvida, melhor assim.

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2 respostas para A questão das “homenagens” às personalidades públicas

  1. Ana O. disse:

    Excelente. Faria raciocínio similar com medalhas e afins. Acho que seria realmente importante mudar essa cultura de exaltação de personalidades.

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