O centenário de Luiz Gonzaga

A menos que você seja um sujeito simultaneamente avesso à TV aberta e à Internet, deve ter visto em algum lugar que hoje se comemora o centenário de Luiz Gonzaga.

Não vou ficar aqui reproduzindo tudo que já se escreveu sobre ele. Confesso, no entanto, que gostaria de escrever este post depois de ter assistido a Gonzaga, de pai pra filho. Mas, como ainda não o assisti, vai assim mesmo.

Luiz Gonzaga não foi somente o Rei do Baião. Foi o Rei do Nordeste. Melhor dizendo: Luiz Gonzaga pôs o Nordeste no mapa da música popular brasileira. Antes dele, o Nordeste não era senão um tema musical extravagante e exótico nas composições da MPB. Quando muito, compunha-se algo na Bahia. Mas, mesmo na boa terra, as canções seguiam a linha daquelas compostas no Sul e Sudeste: o mundo urbano, a praia, a boemia dos bares. Cenários que foram imortalizados, por exemplo, nas composições de Vinícius de Moraes e Tom Jobim.

Com Gonzaga, finalmente a triste e dolorida realidade do povo nordestino ganhou voz e vez. Ou alguém poderia imaginar João Gilberto cantando algo parecido com Asa Branca?

E que representante o Nordeste teve. Tendo vivido na pele as agruras de quem viveu no inóspito cenário interioriano, Gonzaga conseguia transformar a dor e o sofrimento em pura poesia.

Mas Gonzaga não era somente dor e sofrimento. A realidade do cotidiano nordestino era retratada de forma alegre e suave, como, por exemplo, em Penerô Xerém.

Gonzaga era também e dado a ironias. Quem poderia imaginar que um sujeito digamos, “governista” como ele pudesse escrever uma canção parecida com Pagode Russo em plena ditadura militar?

Mesmo tendo viajado tanto, Gonzaga nunca se esqueceu da terra de onde veio. O pernambucano de Exu podia ter ido ao Sudeste para fazer sucesso, mas trouxe o Nodeste consigo. E cantou, numa de suas mais belas canções, a sina que carregara pela vida.

Quando eu tinha 5 ou 6 anos, Luiz Gonzaga veio cantar na minha escola. Lembro-me de pouca coisa do dia, mas me recordo bem daquela figurinha simpática, com seu indefectível chapéu de couro, chegando ao palco de cadeira de rodas (àquela altura, a idade já cobrava seu preço). Gonzaga cantou alguns de seus maiores sucessos, mas a pouca consciência típica de quem não sabia sequer o que aquela figura representava me impediu de prestar a atenção que ele merecia. E a isso que deve se chamar remorso…

De consolo resta, no entanto, a lembrança opaca da criança imberbe, a seguir o pedido do velho Seu Luiz, cantando ao lado de seu filho.

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