A tragédia do rebaixamento

Hoje, todo torcedor palmeirense deve ter acordado de cabeça inchada. Não é pra menos. Pela segunda vez em dez anos, o Palmeiras cai para a série B do campeonato nacional de futebol.

Diga-se, desde logo, que este que vos escreve é inteiramente a favor da regra do rebaixamento. Nada de macaquear a NBA, que não tem rebaixamento, nem muito menos  inventar uma regra de exceção segundo a qual “time grande não cai”. Isso porque não é somente o título, mas, principalmente, a ameaça de cair de divisão que impulsiona os clubes a produzirem um mínimo de excelência no jogo. Ou seja: se hoje o nível do jogo praticado no Brasil é abaixo da crítica, não queira nem imaginar como seria se não houvesse rebaixamento.

Toda vez quem um grande clube cai, formam-se de logo dois grupos: um, o dos torcedores dos times adversários, para tirar sarro dos torcedores do time rebaixado; outro, o dos torcedores do time que caiu, que geralmente adotam a prática do “mata-e-esfola” em relação a técnico, jogadores e diretoria. São poucos os que procuram responder a uma pergunta básica: “Por que caiu?”

Em regra, a resposta a essa pergunta fica a cargo, mal e porcamente, da imprensa esportiva, um dos setores tecnicamente mais fracos da mídia nacional, com honrosas exceções (quase todas na Espn Brasil). Melhor seria se os torcedores fizessem, por conta própria, o que boa parte da imprensa esportiva se abstém de fazer: a autópsia de um time rebaixado.

Em quase todos os casos de times considerados grandes, o rebaixamento seguiu um padrão. Trata-se de uma tragédia encenada em cinco atos:

No primeiro ato, tudo são espinhos. O time cambaleia, está há muitos anos sem ganhar títulos e ninguém vê esperança no final do túnel. Como uma varinha mágica que resolverá todos os problemas, dirigentes inescrupulosos buscam esquemas no mínimo, digamos, “duvidosos” para trazer dinheiro. Bancos, empresas de marketing, fundos de investimento de sabe-se-lá-da-onde, enfim… alguém aparece disposto a investir na “marca” do time.

No segundo ato, faz-se a preparação do palco. Com dinheiro na mão, os dirigentes gastam os tubos comprando alguns medalhões do esporte e outros jogadores de qualidade duvidosa para formar um “elenco vencedor”. Contratam também um técnico de renome para “administrar” as estrelas do time. Montam uma estrutura de primeiro mundo para treinamentos e bombam na mídia.

No terceiro ato, produz-se a encenação. Com muita grana e um monte de jogadores no plantel, o time detona os adversários. Ganha títulos que não ganhava há zil anos, recupera o amor da torcida e lota os estádios. Todos ficam admirados com o “futebol apresentado” pelo time.

No quarto ato, a encenação vira pastiche. Depois de “feito-o-que-deveria-ser-feito”, os “investidores” tiram o dinheiro do clube. Sem verba para manter o elenco estelar, o time tem de se desfazer de meio mundo. Pior: ainda fica com os restos a pagar da parceria desfeita. Subitamente, o que era uma ilha de prosperidade em meio ao lodaçal dos clubes brasileiros torna-se um buraco negro, sorvendo tudo à sua volta.

No quinto ato, os espinhos ressurgem triunfalmente. Com a bancarrota, salários atrasados e elenco medíocre insatisfeito, os estádios se esvaziam, o pouco dinheiro míngua e a torcida volta a protestar. Sem apoio interno, financeiro e da torcida, o time segue inexoravelmente seu caminho à série B.

Embora seja uma peça com enredo conhecido, a tragédia do rebaixamento parece ser um sucesso de público. Vira e mexe volta aos cartazes para curta temporada. O problema é que, ao contrário das peças de teatro, essa encenação só atrai vaias e xingamentos.

Muitos xingamentos…

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