O bailout da Espanha, ou Os riscos do moral hazard

Depois de Irlanda, Grécia e Portugal, agora quem está a pedir penico na Europa é a Espanha. Sem caixa para resgatar seu sistema bancário, os sempre orgulhosos espanhóis tiveram de pedir arrego e, agora, devem receber algo em torno de EU$ 100 bilhões para salvar sua banca encalacrada com empréstimos podres.

No fundo, o caso espanhol não está muito distante, por exemplo, do caso americano. Depois do boom econômico de aproximadamente uma década, do começo dos anos 90 até o início dos anos 2000, os preços do mercado imobiliário subiram como um foguete, fomentados pelo empréstimo fácil e barato das bancas espanholas. Agora, com um desemprego que abate 1 em cada 4 espanhóis – 1 em cada 2, se contarmos apenas os com menos de 25 anos – há dívida demais e renda de menos no cenário ibérico.

E exatamente como em todos os outros casos, partiu-se para a solução que, segundo o consenso geral, é única e obrigatória: resgatar os bancos.

Essa verdadeira ojeriza à quebradeira bancária tem uma razão história. Quando a Bolsa de Nova Iorque fez crack em outubro de 1929, só quem perdeu dinheiro foi quem tinha ações na bolsa. Até aí, tudo bem, porque quem decide arriscar seu dinheiro no papelório deve estar preparado para esse tipo de coisa. No limite, dane-se o investidor.

Mas, como explicou Ben Bernanke certa vez, o que gerou a Grande Depressão não foi a crise no sistema acionário, mas a crise no sistema de crédito. Com grande parte do dinheiro investido em ações, muitos bancos viram seus patrimônios reduzidos a pó em questão de semanas. Com isso, havia duas saídas: ou se salvavam os bancos – isto é, injetava-se dinheiro público neles – ou se deixavam ir à breca.

Sempre liberal, o FED – Banco Central americano – começou a descer o porrete: “Quebrou? Problema seu”. Uma a uma, as casas bancárias foram quebrando. Salvo engano, ao todos 3.000 bancos fecharam nos EUA entre 1929 e 1935. Qual foi o problema?

Os bancos que estavam bem ficaram com medo de emprestar a qualquer um. Afinal, com tanta gente quebrando, quem iria garantir que o empréstimo seria pago depois? Foi através da virtual paralisação do sistema de crédito que o que era uma crise acionária transformou-se numa das piores crises econômicas da história.

Por isso, a “lição” que ficou do episódio é: não importa o que acontecer, em momentos de crise, os bancos têm de ser resgatados. Desde então, esse “ensinamento” tem sido reproduzido acriticamente à exaustão mundo afora, desde o Brasil (com o Proer), passando pelos Estados Unidos e, agora, a Espanha.

Mas será que tinha de ser assim?

Há um conceito muito difundido no tal do “mercado” chamado moral hazard. Em termos literais, a expressão significa “risco moral”. Em termos práticos, significa que, se alguém tem a garantia de que será resgatado, nada o impedirá de persistir no erro. Algo como uma criança birrenta que, ameaçada com o castigo, dá de ombros para as ordens dos pais, porque sabe que, quando fizer beicinho, eles logo se derreterão, a tomarão em seus braços e esquecerão a punição. No final das contas, a criança manhosa se transformará pouco a pouco num monstro difícil de ser controlado. Suas malcriações tenderão a perpetuar-se e, o que antes era visto somente como birra, pode revelar-se algo muito pior quando chegar a adolescência ou a fase adulta.

No caso dos bancos, acho que acontece a mesma coisa. Quando o mercado surfa a bolha, eles emprestam aos piores tipos de devedores, de olho apenas na alta de taxa de retorno e no balancete trimestral (isso para não falar nos bônu$ dos seus executivo$). Quando a bolha estoura e tudo entra em débâcle, não em problema. Os governos sempre estarão lá para salvá-los. Desse jeito, quem haverá de impedi-los de fazer empréstimos duvidosos?

Pouca gente lembra, mas em 1995 o maior banco da Inglaterra, o Barings, quebrou ao perder US$ 1 bilhão na jogatina asiática, fruto da ousadia e do despreparo de um único operador. Logo, logo, vieram os “analistas” do “mercado” propondo o resgate da casa bancária. Afinal, era lá onde a Rainha punha seu troco do supermercado. Num exemplo histórico para o mundo, o Banco da Inglaterra (o Banco Central deles) disse: “Quebrou? Problema seu”.

Duas semana depois, o Barings foi comprado pelo ING holandês pela quantia simbólica de £1. O mundo não acabou, ninguém morreu e foi-se em frente.

E daí?

“E daí?” nada.

Quem sabe nos próximos anos não aparece alguém com as much balls as the Bank of England?

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