Poucas notícias me deixaram tão felizes e satisfeitos nos últimos tempos do que a redução dos juros cobrados ao consumidor feita pela Caixa e pelo Banco do Brasil. Pode ter passado despercebido (duvido), mas onde a maior parte do “mercado” vê populismo barato, os economistas mais sérios vêem capitalismo na veia.
Durante pouco mais de uma década, do começo dos anos 90 até o final do Governo Fernando Henrique, a palavra “estatal” foi demonizada pela imprensa e por boa parte do establishment político nacional. O termo tornou-se sinônimo de ineficiência, e seus empregados tornaram-se o exemplo mais bem acabado de marajás. Pouco a pouco, as estatais começaram a readquirir seu respeito na sociedade, e hoje é difícil imaginar o Brasil vivendo sem algumas delas.
Os defensores dessa entidade esotérica conhecida como “Mercado” adoravam recitar Castello Branco aos microfones: “Se a estatal é eficiente, não precisa de monopólio. Se não é eficiente, não merece o monopólio”.
Uma lógica perfeita, sustentada por um dos mais brilhantes intelectuais que já sentou na cadeira de presidente – à força, é verdade – jamais poderia ser rebatida. O que ninguém costumava reparar era que Castello não era contra as estatais. Era contra o monopólio estatal, bem outra coisa.
Fundamentalmente, o problema é o seguinte: empresário só se preocupa com os lucros. Banqueiro, então, nem se fala. Ok. Jogo jogado. Ninguém pode obrigá-los a tornaram-se filantropos. (Isso acontece nos Estados Unidos, o berço do socialismo. Mas deixa pra lá). Mas, se não regulados, os mercados privados podem-se provar muito mais danosos à economia do que as intervenções estatais.
Castello sabia que o monopólio – público ou privado – era algo deletério para a nação. Por isso, queria que as estatais competissem com outras empresas. A boa e saudável concorrência, elemento essencial a qualquer economia capitalista, parecia ter sido engolida pelos Tupinambás quando chegou ao Brasil. Ou a atividade econômica ficava totalmente nas mãos do Estado, permitindo o direcionamento político e a promoção da ineficiência pela rede de apaniguados; ou ficava nas mãos dos Senhores do Universo, que, combinados, repartiam os nichos de mercado de maneira que todos ganhassem o seu sem arriscar um só ceitil.
No caso da Banca, acontece mais ou menos isso. Enquanto pagam aos aplicadores menos de 1% a.m por seus depósitos, os bancos cobram de seus infelizes devedores dez vezes mais nas linhas de crédito. O que varia só é o tamanho da faca, mas em nenhum caso a lâmina menor descaracteriza a tunga cometida contra o bolso do consumidor. Ou alguém vai dizer que uma taxa de 9% a.m é mais “decente” que uma de 12%?
É aí que entram os bancos estatais. Se o governo assim reduz os impostos sobre o crédito como os juros básicos da economia, e os bancos privados só aumentam as suas margens de lucro, vêm a Caixa e o Banco do Brasil e injetam uma dose cavalar de concorrência na economia. Desesperados, os bancos privados agora vão correr atrás. Porque não se engane: se há uma coisa que deixa banqueiro com mais raiva do que ganhar menos dinheiro é não ganhar nenhum.
Viva o capitalismo.