O distúrbio cronotopocinético

Um mal desconhecido e muito pouco estudado pela medicina e pela sociologia nacionais é o chamado distúrbio cronotopocinético.

Não, não perca tempo consultando o Google ou os compêndios de Medicina. Não sou médico, mas doutores amigos meus me asseguraram: não há na CID (Classificação Internacional de Doenças) qualquer código identificador desse distúrbio. Trata-se de uma patologia endêmica e, aparentemente, sem cura, a se espraiar cada vez mais neste Brasil varonil.

Mas que raios é o tal distúrbio cronotopocinético?

Basta recorrer às raízes gregas. Cronos = tempo; topos = lugar; kinetikós = movimento. Traduzindo para o vernáculo, trata-se do distúrbio que implica a aparente incapacidade de certas pessoas de conseguirem chegar em determinados lugares no horário marcado.

Sim, agora você entendeu do que estou falando. E, com certeza, deve ter dado uma risadinha ao se lembrar de alguém próximo que padece desse mal.

Não é pra menos. Ultimamente, o distúrbio cronotopocinético deixou de ser uma exceção e passou a ser uma regra no nosso cotidiano.

Antigamente, os casos ficavam restritos a profissionais liberais (especialmente médicos e advogados), que adoravam fazer o cliente esperar na tentativa de aparentar supremacia ante o pobre coitado. Tipo: “Ele vai ficar lá esperando o tempo que eu quiser porque eu posso fazer ele esperar o quanto eu quiser; é ele quem precisa de mim, e não eu dele”.

À medida que se subia nos estratos sociais, o mal se agravava. Desde os pequenos cargos até os altos escalões da República, esperas de duas, três horas passaram a ser vistas como rotina da “agenda” da “ótoridade”.

Há, é claro, casos de pessoas que se atrasam não porque querem se sentir superiores às outras, mas porque tem um problema crônico de organizar a agenda diária. Trata-se de um tipo mais leve do distúrbio, mas igualmente irritante para aqueles que prezam pela pontualidade.

Como era de se esperar, esse mal passou a se incorporar de tal modo ao nosso cotidiano que convites banais, como festas de aniversário ou de quinze anos, passaram a indicar o horário do evento com o relógio adiantado em meia hora. Um exemplo: um casamento marcado para as 20h indicará no convite 19h30m. Isso para “prevenir” a festa dos atrasos alheios, já antevendo um atraso “regulamentar” de meia hora para todos os convidados.

O incoveniente são os sujeitos que costumam acreditar em convites. Para eles, a hora marcada no convite – veja você – é a hora de início do evento. Não passa pela cabeça deles que alguém se disporia a adiantar o horário em meia hora apenas para permitir aos atrasados costumeiros chegar “pontualmente” à festa.

E é aí que está o problema. Como tudo no país, a deformidade (atraso) subordina a conduta regular (pontualidade), de tal modo que o que antes era tido como socialmente incorreto passa a ser encarado como algo natural, como a migração das andorinhas.

De atraso em atraso, o país vai caminhando para trás. E para quem acredita que o ser humano evolui, eis aí uma prova de que o cientificismo é algo fadado ao fracasso deste lado do Equador.

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