O sambista do escracho

Desde sempre o samba esteve associado ao Rio de Janeiro. O mar, o sol, as mulatas das favelas e os próprios sambistas compunham a aquarela daquela que viria a ser conhecida como Cidade Maravilhosa. Capital do país até a inauguração de Brasília, o Rio de Janeiro ostentava, a um só tempo, a condição de cidade mais bonita e mais importante do país. Com isso, seus moradores adquiriam um certo ar blasé, como se estivessem seguramente certos da superioridade cultural, financeira e política de sua cidade.

A 900 km de distância, São Paulo parecia apenas uma cidade querendo se tornar grande. Ensimesmada na serra, São Paulo parecia apenas dedicar-se a expandir; estava muito ocupada crescendo para se preocupar com coisas menores como as manifestações culturais e a diversão em geral. Talvez por isso, perpegaram-lhe o epíteto que ganhou ares de sentença condenatória: “São Paulo é o túmulo do samba”.

Só que nessa época apareceu um sujeito decidido a mostrar que, se São Paulo era o cemitério do samba, seus mortos eram bem vivos. Seu nome? Adoniran Barbosa.

Adoniran era um sujeito simples. Nascido pobre, passou por todo tipo de profissão – até mesmo marmiteiro – até se encontrar na música. Embora sua voz não fosse propriamente uma suíte musical aos ouvidos, suas composições trouxeram ao samba algo inovador: a linguagem do populacho. Se os sambas cariocas exorcizavam a pobreza da favela – berço da canção – ao trazer letras que fariam inveja aos mais refinados catedráticos do vernáculo, Adoniran ia no caminho inverso. Sua intenção era trazer para as canções a realidade triste e sofrida da gente pobre das cidades, e não refletir uma realidade colorida e irreal. O melhor caminho para isso, portanto, seria pôr nas letras os mesmos erros de português do homem comum.

A melhor expressão do jeito Adoniran Barbosa de compor está presente no Samba do Ernesto. Diz a canção:

O Arnesto nos convidou pra um samba, ele mora no Brás
Nóis fumos não encontremos ninguém
Nóis voltermos com uma baita duma reiva
Da outra vez nóis num vai mais
Nóis num semo tatu!

Às vezes os erros de português saíam do contexto da pobreza marginal da cidade, atingindo o nível do escracho, mesmo. É o caso de Tiro ao álvaro, imortalizada no dueto de Adoniran com a inesquecível Elis Regina:

De tanto levar frechada do teu olhar
Meu peito até parece sabe o quê?
Táubua de tiro ao álvaro
Não tem mais onde furar

Mas nem tudo era risada nos sambas de Adoniran Barbosa. A realidade triste de quem não tinha onde morar foi exemplarmente retratada em Saudosa maloca.

Na letra, Adoniran chama a atenção do transeunte distraído, para informar “que aqui onde agora está esse adíficio arto era uma casa véia, um palacete assobradado”, na qual ele, Mato Grosso e Joca construíram sua maloca. No entanto, o dono não gostou muito do barraco erguido em seu domínio, e um dia “veio os homi c’as ferramentas que o dono mandô derrubar”. Conformados, os pobres coitados vão “pro meio da rua priciá a demolição”. E “cada táubua que caía doía no coração”. O lenitivo, como sempre acontece abaixo do Equador, vem do conforto divino: “Deus dá o frio conforme o cobertor”, disse Joca aos outros dois. Para esquecer, todos cantavam: “Saudosa maloca! Maloca querida! Dim dim donde nóis passemu dias feliz de nossas vidas”.

Mas talvez a música mais famosa de Adoniran seja seu primeiro sucesso, samba obrigatório em qualquer roda digna do nome: Trem das onze.

E já que a hora se aproxima, vou terminar por aqui, antes que o trem passe, e eu não posso ficar…

Esse post foi publicado em Música e marcado , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para O sambista do escracho

  1. Kellyne disse:

    Post bem propício com a proximidade do carnaval! Não conhecia a história do Adoniran Barbosa, apenas algumas músicas, mas gostei muito! O interessante é que ele é contemporâneo dos artistas modernistas brasileiro, será que isso tem alguma relação com a liberdade na linguagem das composições dele ou nada a ver? Bjos

    • arthurmaximus disse:

      Acho que não diretamente, Kellyne. Não acredito que Adoniran tenha “bebido” diretamente da corrente modernista a inspiração para compor seus sambas do populacho. Ele era apenas uma criança imberbe quando ocorreu e, até estourar com seu primeiro sucesso em 1964 (Trem das Onze), já haviam se passado mais de 40 anos. De todo modo, o modernismo contribuiu para uma mudança na forma de expressão cultural do país, instaurando o combate à “macaquização” da cultura. EM 1960, macaquear já era algo do passado. Por esse prisma, Adoniran não chegou a ser um vanguardista como o foram os modernistas da Semana de 22. Por outro lado, não deixou de representar uma ruptura com o samba “clássico”, o que lhe confere, est modus in rebus, o mesmo status revolucionário. Beijos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.