O Ministro do “vai-dar-merda”

Atribui-se a Chico Buarque uma das maiores lições já ministradas sobre o exercício do poder. Segundo ele, toda pessoa em um cargo de relevo deve prover a si mesmo de um “Ministro do vai-dar-merda”.

Naturalmente, quem alcança determinada posição na hierarquia social – seja pública ou privada – atravessa o espelho, como Alice no País das Maravilhas. Começa a ver as coisas pelo outro lado. Subitamente, o sujeito passa a ter conhecimento de uma série de informações que o mortal comum nem sonha entender. Por isso mesmo, julga-se mais informado do que todo mundo e tende a subestimar as opiniões de fora do círculo mais íntimo do poder. Com o tempo, mesmo algumas das opiniões “de dentro” tendem a ser ignoradas. O sujeito vai-se ensimesmando cada vez mais, ouvindo e sendo ouvido por uma quantidade cada vez menor de pessoas. É a famosa “solidão do poder”.

O problema é que nem sempre o cotidiano das informações de corredores corresponde ao sentimento das ruas. E aí começa a se abrir um fosso entre a percepção que o poderoso tem de sua própria situação e a percepção que o restante da humanidade tem dele.

Nessas horas é que, segundo Chico Buarque, tem de haver o sujeito com coragem suficiente para levar ao poderoso as más notícias e adverti-lo das conseqüências dos seus atos. Alguém que puxe o sujeito pela cordinha e o traga de volta à realidade. Alguém próximo o suficiente para gozar da sua confiança mesmo quando seja para baixar o sarrafo no próprio cristão.

A questão é que, na maioria das vezes, toda pessoa em situação de poder deixa-se cair na velha armadilha de cercar-se de puxa-sacos por todos os lados. Há os que exercem o puxa-saquismo por ofício, ou seja, porque precisam do cargo. Mas há também os que o exercem a bajulação com naturalidade, porque gostam de ser assim.

Claro, ouvir elogios é muito melhor do que ouvir críticas. E, com a soberba natural de achar-se dono do mundo, o sujeito não consegue enxergar outra coisa diante de si senão os seus próprios êxitos, com o providencial realce de seu entorno de baba-ovos. Estabelece-se um círculo vicioso de auto-engano e ilusões desmedidas, só quebrado quando algum fato extraordinário – sempre exterior – consegue romper a bolha a que se confinou o próprio sujeito.

Quando isso acontece, o choque costuma ser brutal. Ver um castelo de cartas ruir diante de seus olhos não é tarefa fácil. Nessa hora, há duas possibilidades: ou o choque de realidade faz o sujeito abandonar seu pequeno castelo e passa a ouvir menos elogios e mais críticas; ou o sujeito sente-se traído, enganado, iludido, justamente pelas únicas pessoas em quem ele “confiava”. E torna-se cada vez mais isolado e encastelado.

Por isso, fica a dica: se algum dia você alcançar alguma situação de poder, nomeie alguém de sua estrita confiança só para dizer, de quando em vez, o seguinte:

“Cara, não faz isso. Vai dar merda”.

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