Quem acompanha o blog deve ter visto há alguns meses um post explicando a finitude do dinheiro e os mistérios do sistema bancário. Em suma, explicava-se que o dinheiro no banco é uma ilusão. Suponha uma nota de R$ 100. Você a deposita no banco e no seu extrato aparecerá R$ 100. Só que o banco pega essa mesma nota e empresta a outra pessoa. No extrato da outra pessoa, aparecerão outros R$ 100. Subitamente, seus R$ 100 viraram R$ 200. E por aí vai.
Também foi dito expressamente que os bancos não gostam de explicar isso porque temem que boa parte da população, ao saber que se todo mundo for sacar ao mesmo tempo não haverá dinheiro pra todos, possa vir a detonar uma corrida bancária.
Em um artigo que li outro dia – cujo link infelizmente perdi – um ex-presidente do Banco da Inglaterra (0 Banco Central de lá) dissertava sobre o mesmo tema. Com muito mais autoridade do que este que vos escreve, ele dizia que, de todas as possibilidades de sistema financeiro existentes, havíamos escolhido a pior delas. O artigo é um tanto técnico e difícil de resumir, mas, em suma ele dizia mais ou menos o seguinte:
Os bancos desempenham fundamentalmente duas funções: custódia de valores e intermediação de dinheiro. Há os que se valem dos bancos pela segurança, porque não querem deixar dinheiro em baixo do colchão, e há os que investem o dinheiro para receber juros depois.
Hoje, para os bancos, o dinheiro de ambos é tratado da mesma forma. Pega-se o dinheiro depositado e empresta-se a alguém disposto a dever. O problema, segundo ele, é que as expectativas de retorno dos dois clientes é muito diferente. Enquanto o horizonte de recebimento do dinheiro do investidor é maior (em tese, ele não tem pressa em receber o dinheiro de volta, pois quanto mais tempo deixar o dinheiro lá, mais juros receberá), o do que depositou no banco simplesmente para custodiar o dinheiro é virtualmente nulo (a qualquer momento o sujeito pode ir lá e sacá-lo).
Mas, como o banco empresta o dinheiro de ambos a terceiros sem querer saber qual o horizonte de retorno do dinheiro, voluntariamente arrisca-se a cair em insolvência. No exemplo acima citado, imagine o sujeito depositando R$ 100, somente para custódia. O banco pega o dinheiro e empresta-o a um cidadão, que pagará o empréstimo em 10 prestações de R$11. O banco lucraria, ao final, R$ 10 (R$ 110 – R$ 100). Beleza.
Imagine, porém, que no mês seguinte o sujeito vai lá sacar seu dinheiro. Ao invés dos R$ 100 que depositara, só haverá R$ 11, da primeira parcela do empréstimo do devedor. Um banco supostamente saudável, sem problemas de inadimplência ou coisa parecida, subitamente é reduzido à insolvência e quebra.
Como disse o articulista, trata-se de um sistema estruturado para viver permanentemente no fio da navalha. Qualquer crise de confiança, por menor que seja, pode detonar o sistema financeiro em pouco mais de uma semana. Segundo ele, o dinheiro físico em circulação (cédulas e moedas) equivale a apenas 5% da riqueza total expressa em valores financeiros (empréstimos, balanços de bancos, letras financeiras, etc.). Eu particularmente acho essa estimativa um tanto otimista. Provavelmente, o dinheiro físico não chega sequer a 1% da riqueza total em circulação.
Como não há “almoços grátis”, faz-se assim porque, apesar do risco, a possibilidade de lucro é muito, muito maior.
Fora isso, o ex-presidente do BC inglês afirma que, ao emprestar dinheiro de quem somente pretendia custódia é uma forma disfarçada de fraude bancária. É dizer: o banco lucra indiscriminadamente com o dinheiro alheio, sem remunerar (com juros) o sujeito que “lhe emprestou” o dinheiro.
Para minorar os riscos, ele sugere a segmentação das duas espécies de depositante. O banco, assim, só poderia emprestar o dinheiro do investidor, mas não do mero correntista.
Não sei se daria certo, mas que parece melhor do que há hoje em dia, isso parece.