Os “representantes das comunidades” e a leniência do Poder Público

Político, por definição, é um sobrevivente. Isto é, só consegue se manter como tal se atingir dois objetivos: 1) ficar em evidência; 2) estando em evidência, não comprometer a sua imagem. Por isso, se há algo que quase todo político não quer é polêmica. Isso porque a polêmica força-o a fazer aquilo que mais detesta: assumir uma posição. Assumindo uma posição, automaticamente contentará a uns e desagradará a outros. Com esta última parcela, ficará mal na fita. E perderá votos nas próximas eleições.

Há, é claro, algumas poucas exceções. Quase sempre, elas pertencem à classe dos políticos eleitos por uma determinada classe: reacionários, gays, evangélicos, etc. Em comum, todos jogam para a “sua” platéia (leia-se: os eleitores da classe que representam), e querem mais que o resto se dane. Estes não fogem da polêmica, mas antes se alimentam dela, justamente para poder “justificar” sua eleição à minoria que representam. Fora disso, todos os demais portam-se da mesma forma: se há polêmica, tô fora.

Indo ao que interessa: já escrevi e reescrevi várias vezes sobre a Copa de 2014. Quem acompanha, não tem dúvidas acerca da posição do autor sobre o evento. Mas, se há algo de positivo nele, é o fato de trazer à discussão o papel do Poder Público no reordenamento das cidades e a leniência com que a classe política trata os “representantes das comunidades”.

Veja-se o caso da Via Expressa de Fortaleza. A Via margeia um trilho da RFFSA. De um lado e de outro, portanto, as terras pertencem à União. Terras públicas, de domínio público, insuceptíveis até mesmo de serem objeto de usucapião. Mesmo assim, há anos o espaço foi invadido e criaram uma “comunidade” conhecida como “Favela do Trilho”.

Dentre as obras previstas para a Copa, está um Veículo Leve sobre Trilhos (VLT). Destinado a ligar o Porto do Mucuripe ao bairro da Parangaba, para a construção do VLT será necessário remover os casebres construídos às margens do trilho. Trata-se de uma obra essencial para desenvolver as ações de mobilidade urbana numa cidade extremamente carente de transporte público.

Súbito, surgem os “representantes das comunidades”:

“Ah, não pode tirar os moradores da comunidade”. “Eles moram lá há 30 anos; já estão acostumados e desenvolveram raízes no local”. “Vão morar muito distante do centro da cidade”.

Sempre acompanhados pelos insuperáveis “políticos socialistas”, os “representantes das comunidades” conseguem mobilizar a imprensa, o Ministério Público e o Judiciário e conseguem colocar em xeque uma obra fundamental para o desenvolvimento da cidade. Tudo isso porque não querem “morar longe do centro”. E a coragem da classe política vai pra espaço.

Os governantes de plantão evitam a todo custo comprar briga com os tais “representantes das comunidades”. Assistem impassíveis à sua movimentação, como se os obstáculos que os tais “representantes” pretendem impor ao reordenamento da cidade fosse uma fatalidade. No fundo, no fundo, simplesmente não querem aparecer para boa parte da opinião pública como vilões. Além disso, sempre há os esquerdistas de plantão a denunciar que a política de reordenação urbana é “coisa da direita”. E a última coisa que os míopes políticos querem é serem tachados de “sujeitos de direita” (como se “direita” fosse xingamento).

Em princípio, o caso é de simples resolução. A terra já é pública; não seria necessário nem sequer desapropriar os terrenos. No limite, bastaria mandar passar o trator por cima e fim de papo.

Ok, ok. Ninguém é desalmado o suficiente para desalojar de uma hora pra outra os moradores do local sem lhes dar uma alternativa de residência. Daí ser razoável pagar-se uma indenização para comprarem outra casa. Haveria, ainda, a possibilidade de se construir um conjunto habitacional.

Soluções há; basta vontade e disposição política para implantá-las. Mas daí a imaginar que um punhado de invasores possa bloquear a construção de uma obra que beneficiará a cidade inteira, vai uma grande distância. A compreensão das dificuldades existenciais de parte da população não pode servir de desculpa para o desrespeito às normas vigentes. Não importa há quanto tempo eles estão lá. Não deixaram de ser invasores pela passagem do tempo. O espaço é público, assim como pública é a destinação da obra.

No entanto, predomina no Brasil a complascência com os “desfavorecidos”. Passa-se a viver num país em que os extremos da pirâmide social ignoram os regramentos da vida. Para os que estão no topo, o braço da lei é sempre curto. Para os que estão no piso, o ônus político de enfrentá-los não compensa.

Espremida no meio, a classe média paga o pato nos dois sentidos. E deve estar se perguntando: “se é para não seguir regras, por que eu as devo seguir?”

No dia em que ela resolver reivindicar “isonomia”, vai dar uma confusão danada.

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Uma resposta para Os “representantes das comunidades” e a leniência do Poder Público

  1. Mourão disse:

    Concordo com quase tudo, porém acho que “reacionário” não é uma categoria político- ideológica, pois os encontramos nos segmentos à esquerda´à direita e entre os desengajados. No caso, os que reagem ao que é necessário para sociedade como um todo, sob justificativas humanistas ( muitos só são bons e fraternos com os que estão bem distantes) são os que buscam o aplauso fácil concedido ao politicamente correto , os grandes demagogos.

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