Dando sequência ao especial de aniversário do Dando a cara a tapa, vamos ver o que o Blog espera para este 2026 que ora se inicia.
No Brasil, até o passado é incerto, brincam os historiadores. Que dirá o futuro, ainda mais em tempos de Instagram, Twitter e TitTok, no qual os algoritmos ditam as regras do debate público e influenciam a forma de pensar e agir de dezenas de milhões de pessoas. Mesmo assim, por se tratar de ano de eleições presidenciais, é seguro dizer que, a partir de abril deste ano, não se falará em outra coisa senão no pleito de outubro.
E por que abril?
Porque em abril encerra-se o prazo eleitoral para desincompatibilização de qualquer um que pretenda concorrer e ocupa cargos no Executivo (salvo os que concorrem à reeleição. Neste ano especificamente, esse “qualquer um” tem nome e sobrenome: Tarcísio de Freitas, atual governador de São Paulo.
Cria do bolsonarismo, Tarcísio segue a linha de João Dória e tantos outros que se vendem como “técnicos”, “gestores” ou qualquer outra designação que não seja de “político”. Tendo ocupado cargos no governo Dilma e Temer, Tarcísio alcançou projeção no desgoverno Bolsonaro. Em um ministério que transitava entre o bizarro e o burlesco, o então Ministro da Infraestrutura destacou-se por ser o mais “normal”. Seguindo a lei do contraste, segundo a qual, se eu estou no meio de um monte de gente feia e não sou tão horroroso assim, logo eu sou bonito, Tarcísio conseguiu projetar sucesso quando era apenas medíocre.
Preferido do pessoal de “O Mercado” – que acha que vai poder retomar a jogatina da privataria que rolou nos dois governos Fernando Henrique – e do Centrão fisiológico – que acha que poderá manobrá-lo para aumentar ainda mais o seu quinhão no orçamento federal -, Tarcísio é vendido por essa gente como um “bolsonarista moderado” (risos).
Além de o rótulo ser falso (para saber mais, clique aqui), resta saber que tipo de roupa um candidato desse tipo iria vestir para ir ao baile das eleições. Sim, porque se há uma coisa intrínseca ao bolsonarismo é o radicalismo. Se o candidato “bolsonarista” não for radical o suficiente, a malta ignara que segue essa gente achará algum doidivanas para chamar de seu. Foi o que ensinou a eleição municipal paulista, em que o “bolsonarismo ideológico” de Pablo Marçal quase atropelou o candidato oficialmente apoiado pelo “Mito”: Ricardo Nunes. E, se a busca for por moderação, a primeira coisa que o sujeito tem de fazer é renegar Bolsonaro e seus radicais. A menos que Tarcísio seja uma espécie de “candidato quântico”, que pode ser uma coisa e seu contrário ao mesmo tempo, esse arranjo não tem como se sustentar.
Fora isso, com o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro pelo pai, Jair, as vias à direita parecem interditadas para qualquer um que pretenda sair por essa faixa do eleitorado. Indicado a governador de São Paulo na base do dedazo, Tarcísio jamais se lançaria candidato contra alguém com o sobrenome do seu criador. Além da certeza de ser bombardeado pelo gabinete do ódio bolsonarista e de ser tachado por boa parte do eleitorado de “traidor”, se Tarcísio se lançar candidato a presidente, isso significa que ele deu all in na sua carreira política. Se ganhar, leva tudo (inclusive o posto de novo líder da direita). Se perder, fica sem cargo nenhum. E, convenhamos, não deve ser fácil abrir mão da cadeira que rege o segundo maior orçamento da República: o do Estado de São Paulo.
Parte do Centrão e de “O Mercado” parece estar em negação quanto a isso. Tem gente que acha que algum “milagre” de última hora fará com que Flávio Bolsonaro retire sua candidatura em favor de Tarcísio. Mas o fato é que não há razão política alguma para que Bolsonaro abra mão do seu capital político em favor de alguém estranho à sua família. Atormentado pela idéia constante de que será traído, Bolsonaro não confiou sequer na sua mulher, Michelle, para indicar como candidata à presidência. Sabendo disso, chega a ser cômico imaginar que tem gente por aí achando crível uma chapa “Tarcísio-Michelle” à presidência.
Do lado da esquerda, o jogo está jogado. A menos que surja alguma questão de saúde de última hora, o candidato será ele, sempre ele: Luís Inácio Lula da Silva. Dominante no campo jacobino do espectro político desde que derrotou Brizola e cavou a vaga no segundo turno contra Fernando Collor em 1989, Lula esteve – em nome próprio ou por interposta pessoa – em todas as eleições desde então. Não seria agora, sentado na cadeira e comandando a máquina do governo federal que ele abriria mão do posto que ele considera eternamente seu.
Tendo ganhado cinco vezes (três em nome próprio e duas com Dilma Rousseff), Lula joga com as brancas sabendo a receita do sucesso numa eleição. Por ter perdido outras quatro vezes (três em nome próprio e uma com Haddad em 2018), o torneiro bissílabo de São Bernardo sabe exatamente quais erros conduzem a uma derrota numa disputa presidencial. Seria no mínimo ingenuidade acreditar que, seja qual for o cenário, Lula não seja franco favorito para ganhar mais uma eleição.
Claro, a turma petista adora aprontar das suas e pode causar estragos numa contenda acirrada. O famoso caso dos “aloprados” custou o segundo turno a Lula em 2006, quando deveria ter ganhado no primeiro turno contra seu então adversário Geraldo Alckmin. Além disso, Lula vez por outra gosta de calçar o salto alto de achar que ninguém sabe nada e só ele sabe tudo. E a arrogância – todos sabemos – costuma ser má conselheira. Ainda assim, Lula precisa errar muito mais do que acertar para perder a condição de favorito.
O futuro a Deus pertence. Mas, a preços de hoje, projeta-se uma disputa entre Flávio Bolsonaro e Luís Inácio Lula da Silva. Sem alguém que sequer lhe faça sombra à esquerda e contando com a provável indisposição do Centrão para tentar tirar dos Bolsonaro o posto de “líderes da direita”, não será surpresa se virmos uma “antecipação” do segundo turno, ou seja, a resolução da disputa já no primeiro turno. Com a rejeição ao sobrenome do seu pai, Flávio Bolsonaro pode – sozinho – tornar-se o maior cabo eleitoral de Lula.
Quem viver, verá.