Facilidade e mundo são dois substantivos que não costumam andar alinhados. Dizer que vivemos em um mundo difícil é chover no molhado, quase sinônimo de dizer que o céu é azul ou que nenhum arroz fica melhor com uva passa. Para quem, olhando ao redor, dissesse que o planeta está se desfazendo aos pedaços, alguém mais cínico poderia replicar: “e qual foi a última vez em que o planeta não estava se desfazendo aos pedaços?” Ainda assim, há motivos para acreditar que as dificuldades agora são bem maiores do que foram em outras épocas.
Desde o bombardeio norte-americano a Hiroshima e Nagasaki, o terror atômico assombra o mundo, a ponto de termos vivido quase metade do século XX sob o risco de destruição global maciça caso as duas superpotências da época – Estados Unidos e União Soviética – resolvessem trocar mísseis uma sobre a outra. O delicado equilíbrio do terror, expresso no malfadado acrônimo MAD (Mutually Assured Destruction – Destruição Mútua Assegurada), deixou o mundo em estado de tensão permanente por quase 50 anos.
Curiosamente, contudo, o equilíbrio atômico entre as duas superpotências trouxe consigo, também, uma relativa estabilidade no cenário geopolítico. Mesmo quando a coisa esquentava, como na Guerra da Coréia ou na Crise dos Mísseis, o fato de termos numa das pontas a possibilidade de destruição da humanidade fazia com que a turma do “deixa disso” acabasse levando a melhor na maioria das paradas. Bem ou mal, esse balé de elefantes dançado a dois diminuiu drasticamente o nível da matança de seres humanos em conflitos, comparado ao que aconteceu na I e na II Guerras Mundiais.
Com a queda da União Soviética em 1991 e a ascensão dos Estados Unidos à condição de potência hegemônica incontestável, projetava-se um futuro de paz e prosperidade. Liderado pelo capitalismo liberal do chamado “Mundo Livre”, ninguém precisaria mais se preocupar com fim do mundo, apenas em melhorar de vida. Caso a coisa degringolasse em algum recanto do planeta, os Estados Unidos – livres das amarras da Guerra Fria – podiam desempenhar o papel de “polícia do mundo”, reprimindo eventuais desvios. Foi o que aconteceu, por exemplo, na Guerra do Kwait. E foi o que aconteceu, também, na Guerra da Bósnia.
A condição dos Estados Unidos como “xerife global”, entretanto, dependia de uma condição básica: a de que eles somente agissem dentro do sistema de regras internacionais. Embora não se pudesse dizer que esse arranjo colocasse os norte-americanos numa posição equivalente à de um juiz – porque “imparcial” nenhum país é -, a legitimidade da sua atuação repousava na capacidade de difundir globalmente pelo menos a impressão de que, se os Estados Unidos agiram, foi para fazer o que era “justo”, não simplesmente para atender a interesses próprios. Apesar de escaramuças ocasionais, como a II Guerra do Golfo, pode-se dizer que a coisa funcionou mais ou menos bem.
Até surgir Donald Trump. Em pouco mais de um ano de segundo mandato, Trump jogou fora todo o arcabouço diplomático duramente erguido durante décadas para assegurar (alguma) relativa paz mundial. Em menos de 18 meses de presidência, o Laranjão já: 1) quis anexar o vizinho Canadá; 2) quis obrigar a Dinamarca a “vender” a Groenlândia; 3) sequestrou o presidente de um país adversário (Nicolas Maduro, da Venezuela); 4) assassinou o chefe de Estado de uma nação soberana (Ali Khamenei), iniciando uma guerra sem fim à vista no Oriente Médio; e 5) disse que ia “tomar Cuba”, pois poderia “fazer o que quisesse” com a ilha caribenha.
Em todos os casos, sem qualquer exceção, não houve sequer sombra daquela fantasia dos americanos atuando como “super-heróis” em defesa da “justiça” ou coisa que o valha. Autoinvestido na condição de pirata do mundo moderno, o Nero Laranja decidiu que iria usar a supremacia bélica de seu país para fazer prevalecer seus interesses econômicos, ainda que ao custo de dinamitar relações com aliados históricos, como era o caso do Canadá ou da Dinamarca.
Ao mesmo tempo em que pintam e bordam ao redor do mundo, os ianques guardam obsequioso silêncio sobre nações que efetivamente oferecem risco ao planeta, como a Coréia do Norte. Se a idéia é “promover a liberdade” e “fazer justiça”, por que os americanos não invadem o país de Kim Jong-Un? A resposta é uma só: porque a Coréia do Norte, ao contrário do Irã hoje e do Iraque há 20 anos, possui de fato armas nucleares.
Diante desse cenário, qual a mensagem que os norte-americanos passam ao mundo? “Corram atrás de construírem armas nucleares, pois, do contrário, em algum momento a gente pode querer te invadir, mudar o governo ou assediar suas riquezas por algum motivo torpe qualquer”. Doravante, o mundo será governado por uma única certeza: não adianta ser “bonzinho”. Não adianta ter exército. Não adianta nem mesmo ser aliado dos Estados Unidos. A única ferramenta que garante a soberania e a segurança de uma nação é dispor de um arsenal nuclear.
Com isso, o mundo passa a entrar numa nova forma de corrida atômica. Todos os países – párias ou não – começarão a correr atrás das suas armas nucleares, como único instrumento de dissuasão disponível contra o assédio externo. Se antes a corrida atômica era somente briga de cachorro grande, coisa de quem pretendia exercer hegemonia a nível global, agora a coisa escorregou para o andar de baixo. Todo mundo vai querer comprar esse “seguro” contra ameaças externas.
Daqui pra frente, o dinheiro que antes poderia ser mais bem empregado em educação e saúde para a população agora será desviado para as forças armadas do país. Em suma, o mundo que Donald Trump está criando é um mundo mais tenso, menos seguro e, com tamanha proliferação de armas atômicas, mais suscetível a um fim repentino pelo holocausto nuclear.
Durma-se com um barulho desses…