Ultraje a Rigor

Já que acabou censurado da trilha sonora do momento de hoje, vou compensar e fazer um post sobre o grupo mais debochado do pop-rock nacional: Ultraje a Rigor.

Como um meteoro, o Ultraje a Rigor surgiu no cenário da música tupiniquim trazendo irreverências, letras de duplo sentido (às vezes de um sentido só, se é que vocês me entendem), ironias, enfim, abalando as estruturas.

Formado por Roger, Leôspa, Edgard e Maurício, o Ultraje a Rigor lançou em 1986 seu disco Nós vamos invadir sua praia. Das 11 faixas do LP, simplesmente 9 alcançaram, em tempos diferentes, o primeiro lugar das paradas, recorde ainda a ser batido.

Até então, nunca se vira nada igual. Grupos de rock com ascensão supersônica já houvera, como o RPM. Mas nenhum trazia de forma tão escancarada o escracho como projeto de vida. Nas entrelinhas, a crítica ácida ao modo de vida e da hipocrisia social reinantes nos anos 80 e, de certa forma, predominantes ainda hoje.

Na música Sexo, por exemplo, Roger criticava a censura televisiva:

Olhei no espelho. O meu tava lá.

Ainda bem que eu não tô na TV se não ia ter que cortar

Indignado, perguntava:

Mas quem essa besta pensa que é pra decidir?

Tudo, é claro, em favor da educação sexual dos jovens:

Depois aprende por aí que nem eu aprendi

Tão distorcido que é uma sorte eu não ser pevertido

O deboche às vezes descambava para a crítica direta ao regime. Inútil, de 1984, é o perfeito retrato da primeira metade dos anos 80, quando o Brasil vivia em estupor fatalista maníaco-depressivo. Algumas passagens são bastante diretas. Por exemplo:

A gente não sabemos escolher presidente (crítica às eleições indiretas)

A gente pede grana e não consegue pagar (crítica à dívida externa)

Tem gringo pensando que nóis é indigente (crítica às visitas do FMI)

Sobrou até para a seleção brasileira, vindo da derrota de 1982:

A gente joga bola e não consegue ganhar

Por isso, Roger gritava no microfone:

A gente somos inúteu!

Outras letras são bem inocentes, até, embora igualmente cômicas e sarcásticas. Ciúme e Nós vamos invadir sua praia são exemplos disso.

Mas se tem uma música que eu considero um verdadeiro tratado sociológico sobre o Brasil é Filho da puta. Roger provoca:

Morar nesse país é como ter a mãe na zona

Você sabe que ela não presta, mas ainda assim adora essa gatona

Não que eu tenha nada contra profissionais da cama

Mas são os filhos dessa dama, que você sabe como é que chama

No final, Roger ainda se desculpa pelo linguajar chulo:

Eu bem que tentei evitar, mas não achei outra definição

Que pudesse explicar

Com tanta clareza aquilo tudo que a gente sente

A terra é uma beleza

O que fode é essa gente

Depois do primeiro disco, o Ultraje nunca conseguiu reproduzir o mesmo sucesso. Até tentaram, mas nada com a mesma qualidade daquele estrondo inicial. Houve apenas uma regravação dos sucessos em versão acústica para a MTV. Mas nada de novo que valesse o registro. Ainda assim,o Ultraje a Rigor não pode ser caracterizado como um episódio de one hit wonder. No máximo, seria one record wonder.

De todo modo, o Ultraje nos faz sentir saudade de um tempo em que o talento era tanto que até do deboche era possível extrair críticas.

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