A militarização do poder no Brasil

Parece que estava escrito.

Depois da eleição de vermos comandante do Exército pressionando o Supremo Tribunal Federal através de uma rede social, depois de vermos o Ministério da Defesa ser ocupado por um general e, finalmente, depois de vermos ex-capitão do Exército ser eleito Presidente da República, parece que o verde-oliva tão característico da caserna se impregnou completamente no ambiente político nacional. Como se tivéssemos regressado cinquenta anos no tempo, agora todo brasileiro é capaz de citar o nome de pelo menos três oficiais-generais da ativa e pelo menos igual número de generais da reserva.

Pode parecer estranho, mas não faz muito tempo que era difícil achar alguém que soubesse o nome do Comandante do Exército, quanto mais de outros oficiais da ativa. Era tempos melhores, em que as grandes preocupações nacionais variavam entre o aumento no custo de vida e o último caso de corrupção no governo. Hoje, à semelhança do que acontecia na ditadura militar, discute-se se determinado oficial é ou não “legalista” e se as Forças Armadas – bate na madeira! – embarcariam ou não em alguma aventura golpista.

Não que isso seja exatamente inesperado. Pelo contrário. A história da nossa república pode ser contada através das quarteladas que tivemos durante o final do século XIX e ao longo do século XX. Conforme já foi analisado aqui, o “mito da caserna” sempre figurou como uma espécie de eminência parda da República. Toda vez que os civis faziam “bobagem”, lá vinham os militares para tirar o país do atoleiro. Essa carta de “super-trunfo” falhou miseravelmente em todos os casos (1930, 1937 e 1964, para citar apenas os casos mais famosos). Mesmo assim, por alguma razão que escapa à compreensão, ele sobrevive no imaginário popular como uma espécie de ultima ratio de uma nação nos momentos de desespero.

Somente isso pode explicar como um parlamentar completamente inexpressivo pôde se eleger cavalgando sua origem da caserna, muito embora tenha saído praticamente expulso do Exército por indisciplina e afronta à hierarquia, justamente os dois pilares da instituição militar. Eleito, parecia óbvio que Bolsonaro recorreria a seus ex-colegas de farda para tentar tocar sua administração. Afinal, ele nunca tivera atividade partidária digna de nota, e a quantidade de parlamentares nos quais depositava alguma confiança não enchiam os dedos de uma só mão. Foi assim que se chegou à maior quantidade de militares ocupando cargos civis na Administração Pública, assim como a maior quantidade de militares nomeados como ministro de toda a nossa história, excedendo até mesmo o que houve no Regime de 64.

O que não se poderia antecipar, contudo, é que até mesmo civis insuspeitos pudessem contribuir para esse fenômeno. É difícil determinar o ponto exato em que tudo começou, mas alguns sinais são particularmente inequívocos. Quando o então presidente do STF, Dias Toffoli, chamou o general Azevedo e Silva para ser diretor do Supremo, já se poderia intuir que algo de estranho se passava na República. Mas, quando o ministro Luís Roberto Barroso resolveu convidar o Exército para participar da comissão de transparência das eleições, atingiu-se o ápice desse movimento. Daí para a absurda proposta do Presidente da República de realizar uma “contagem paralela” dos votos pelas Forças Armadas foi só um pulo.

Parece claro que existe uma evidente hipertrofia da máquina militar no país. Se há algo que a história ensina é que militares são bons em comandar batalhões e vencer guerras. Quando o assunto é cuidar de um país, em regra os civis desempenham melhor essa função. Não por acaso, nenhuma nação do mundo tornou-se grande, rica e desenvolvida sendo governada por militares. Há um quê de imiscibilidade entre o mundo civil e o mundo militar, que faz com que certas coisas que funcionam bem em de um lado, mas não funcionem exatamente bem do outro.

O Brasil precisa dos seus militares para guardar suas fronteiras e para impedir que outros países se assanhem com nossas riquezas. O Brasil não precisa de generais comandando a pasta da Saúde, muito menos de militares fazendo as vezes de escrutinadores paralelos do TSE. Quando se propõe algo do gênero, fica-se com a impressão de que os vencedores consagrados nas urnas dependem, d’algum modo, do beneplácito dos quartéis para assumirem seus cargos. Esse “dilema” já foi resolvido há muito tempo e até agora ninguém apareceu com uma sugestão melhor do que a própria Justiça Eleitoral.

É preciso, portanto, organizar novamente um “regresso aos quartéis”. Aí, quem sabe, poderemos reviver os tempos do general Ernesto Geisel. Numa cerimônia no Planalto, um então desconhecido jornalista chamado Elio Gaspari se achegou ao seu ouvido para perguntar quem era o último general promovido à quarta estrela (era o general Jorge de Sá Pinho). Ao que Geisel respondeu:

– É um grande oficial. E a maior prova disso é você não saber quem ele é.

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