A tentativa de golpe nos Estados Unidos, ou O ocaso de Trump ou o ocaso da América?

Voltando às atividades rotineiras aqui no Blog depois deste brevíssimo recesso de final de ano, eis que a segunda temporada de 2020 já chega “causando” geral com imagens nunca antes imaginadas. E, pra que os trabalhos do Dando a cara a tapa recomecem comme il faut, a primeira coisa a fazer-se é chamar as coisas pelo que elas são. Pois o que houve hoje em Washington não foi um “distúrbio” nem sequer um “protesto”. O que houve foi uma tentativa de golpe de Estado.

Não que a desordem tenha sido completamente inesperada, que fique claro. Afinal, quem acompanhou pelo Twitter as reações enlouquecidas de Donald Trump a urnas que começavam a sorrir para seu adversário (“STOP THE COUNT!”), poderia imaginar que o Nero Laranja dos nossos tempos não entregaria assim, de mão beijada, a cadeira de homem mais poderoso do mundo. Quando se elege um mentiroso egocêntrico e salafrário, com sintomas graves de psicopatia, pode-se esperar de tudo. Mas, mesmo para padrões trumpistas, o que se passou no Capitólio na noite deste Dia de Reis excedeu a qualquer limite.

Desde pelo menos a virada do ano, Trump sugeria que algo do gênero poderia ocorrer. Dentro do intrincado processo eleitoral norte-americano, as disputas pra valer encerraram-se em 12 de dezembro, o famoso dia do “porto seguro” (“safe harbor“). Com a certificação dos resultados eleitorais em todos os estados, não havia mais caminhos eleitorais e/ou jurídicos para que Trump revertesse a derrota nas urnas. As sucessivas cacetadas que seus advogados levaram da Suprema Corte e até mesmo dos juízes federais indicados por ele eram a comprovação mais evidente do quão fútil era seguir contestando o resultado da eleição.

Mas, se não há mais caminhos democráticos e/ou jurídicos para tentar se reverter um resultado eleitoral, o que é que resta?

Resta romper com a legalidade. Ou, em termos mais práticos, dar um golpe. “Golpe” mesmo, não aqueles golpes envergonhados ou “brancos” que muita gente tenta vender por aí, como o que supostamente teria ocorrido no impeachment de Dilma Rousseff. E foi justamente isso que Trump promoveu hoje.

Tendo convocado seus seguidores aos milhares para vir a Washington “pressionar” seus representantes a não certificar Joe Biden como presidente – uma providência cartorária meramente procedimental, sem qualquer efeito prático no resultado da eleição -, Trump literalmente armou um picadeiro em frente à Casa Branca. Com direito a palanque, bandeiras confederadas e a indefectível claque de seguidores fanáticos, o presidente norte-americano literalmente incensou a turba a “marchar” em direção ao Congresso. Daí pra frente, tudo que aconteceu pode – e deve – ser imputado na sua responsabilidade.

Vendidos, não sem alguma razão, como “a última grande democracia do mundo”, os Estados Unidos sempre firmaram uma sólida reputação mundo afora assentando-se na idéia de que, no matter what, as transições de poder davam-se de modo pacífico. Salvo um único  e triste episódio – a Guerra Civil -, essa regra permitiu que uma antiga e miúda colônia britânica, formada por apenas trezes estados provinciais, que compunham uma margem estreita de litoral, tornasse-se, em menos de dois séculos, um colosso que irrompe desde o Atlântico até o Pacífico, a Roma dos nossos tempos, verdadeira locomotiva do mundo e superpotência indiscutível do planeta desde, pelo menos, 1945.

Com base nisso – e também no poder de fogo insuperável de suas Forças Armadas -, os Estados Unidos exercem, há pelo menos meio século, o papel de “polícia do mundo”. E tão grande e incontestável é a sua superioridade militar que os americanos sempre se acharam no direito de ir “ajeitar” as coisas onde eles achavam que elas iam “errado”. Foi assim que se organizaram golpes militares na América Latina, se depuseram presidentes bandidos como Manuel Noriega e se derrubaram ditadores fascínoras como Saddam Hussein. Tudo isso, claro, em nome da “democracia”.

Agora, com essa tentativa canhestra e malfada de golpe de Estado, tudo isso se perdeu. Ao pior estilo das repúblicas bananeiras da Latinoamérica, as cenas de um Congresso sitiado, com gente fantasiada de viking invadindo os plenários da Câmara e do Senado, destróem por completo a noção de Estados Unidos como “berço da democracia”.

Evidentemente, o resultado eleitoral não vai ser alterado nem tampouco haverá uma insurreição militar que mantenha Trump, contra a vontade das urnas, na presidência a partir de 20 de janeiro. Mesmo assim, o dano já está feito. E tão grave é a sua extensão que aos políticos norte-americanos – aí incluídos os próprios republicanos – não restam muitas alternativas: ou derrubam o presidente imediatamente, seja por impeachment, seja pela declaração de incapacidade prevista na Emenda 25 de sua Constituição; ou a democracia americana – e tudo aquilo que ela representa – terá tomado o caminho do brejo.

Mais que isso, uma eventual resposta fulminante das instituições americanas a essa tentativa de golpe teria o efeito benfazejo de estender os seus efeitos para outras paragens. Se Trump for destronado antes do fim de seu mandato e imediatamente levado aos tribunais pelos inúmeros crimes que cometeu nos últimos dias, o mundo poderá respirar um pouco mais aliviado, porque o exemplo que terá ficado será a de que o crime, afinal, não compensa.

Mas, se não acontecer nada…

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