O artigo de Hélio Schwartsman, ou Por que não devemos desejar a morte dos outros

Só me faltava essa.

O país enfrentando a maior pandemia dos últimos 100 anos, o mundo inteiro à beira da depressão econômica, e o grande assunto desta semana foi um artigo escrito por Hélio Schwartsman na Folha de São Paulo: “Por que torço para que Bolsonaro morra“. Como se ensina logo no primeiro ano do curso de Jornalismo, “quando o repórter vira notícia, é porque alguma coisa deu errado”.

Em seu texto, Schwartsman utiliza-se da lógica consequencialista para defender a idéia de que, após o Presidente ter sido diagnosticado com covid, seria melhor para todo mundo que ele piorasse e viesse a falecer. Segundo seu raciocínio, caso isso ocorresse, “ficaria muito mais difícil para outros governantes irresponsáveis imitarem seu discurso e atitudes, o que presumivelmente pouparia vidas em todo o planeta”. Ou seja: morrendo, Bolsonaro serviria de “exemplo” do que não se deve fazer e, por conseguinte, da sua morte resultaria a salvação de muitas vidas.

Que o raciocínio é demasiadamente ingênuo para um articulista do calibre de Schwartsman, já é algo de se espantar logo à partida. Que ele próprio tenha escolhido uma sentença tão desconexa e panfletária para intitulá-lo apenas adiciona perplexidade a um quadro já naturalmente excêntrico.

O raciocínio de Schwartsman é demasiadamente ingênuo porque não há razão alguma para acreditar que a morte de Bolsonaro possa influenciar no desenvolvimento da Covid, muito menos que daí resulta uma autêntica virada da maré a nível mundial. Quem está seguindo – países e pessoas – as melhores diretrizes sanitárias e científicas para combater o mal que nos assola continuaria a segui-las. Quem não as segue, já teve informação suficiente para tomar uma decisão informada. Se ainda assim resolve seguir outro caminho, não será a morte de um presidente de um país da América do Sul que o fará mudar de rota.

Pior que a ingenuidade, só a (má) escolha das palavras para compor o título de seu artigo. Não só porque se está diante de um daqueles casos em que o título não corresponde exatamente ao que está no texto – o que Schwartsman defende vai muito além do mero “desejo” de que o Presidente morra -, mas também porque foi claramente feito para chamar a atenção. E aí o resultado é inevitável: em mundo no qual vigora a regra da informação transmitida por correntes de “zap”, o que sobra é somente a chamada em letras grandes, pouco importa o conteúdo do que foi escrito.

Mas por que, afinal, não se deve desejar a morte dos outros?

Em primeiro lugar, para recorrer à mesma linha argumentativa de Schwartsman, pode-se argumentar com outro tipo de lógica: a utilitarista. Se ninguém sabe como é a morte, vai que é bom? O desejo de um mal supremo ao indivíduo pode, no final das contas, resultar em um grande prêmio. Logo, não faz sentido desejar algo cujas consequências, a rigor, ninguém sabe exatamente quais são.

Em segundo lugar, do ponto de vista deontológico, a questão também não se põe. Qualquer filosofia de dever-ser preconiza o respeito à vida e à integridade do próximo, pois isso se reflete, em regra, em um bem à coletividade (e, portanto, a si mesmo).

Em terceiro lugar, do ponto de vista político, a morte de Bolsonaro, neste exato momento, resultaria no exato oposto do que pretendem seus adversários. O escândalo Queiroz e todos os inúmeros erros cometidos pelo Presidente até aqui seriam subitamente postos de lado, cedendo lugar a uma atmosfera imediata de luto, na qual todos esses pecados seriam de pronto esquecidos. O resultado seria um evento que aumentaria em escala exponencial a aura do “Mito” que seus seguidores tanto insistem em difundir nas redes insociáveis.

Por fim, do ponto de vista cristão, querer que algum semelhante morra significa um sacrilégio sem tamanho. Não só porque o sujeito está, ao fim e ao cabo, tentando usurpar de Deus a definição quanto à “hora” do cidadão, mas também porque está a atentar contra o primeiro mandamento de Jesus Cristo: “Amai-vos uns aos outros, assim como Eu vos amei” (João 15:12).

Fica, portanto, o ensinamento para que não desejais a morte dos vossos semelhantes. Muito menos se um deles for Presidente da República.

Fica, também, a lição da Bíblia. Afinal, é dela que vem o milenar ensinamento:

“Não se alegre quando
o seu inimigo cair,
nem exulte o seu coração
quando ele tropeçar, para que o Senhor não veja isso
e se desagrade
e desvie dele a sua ira”.

Provérbios 24: 17-18

Esse post foi publicado em Política nacional, Religião e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.