“Esse negócio de golpe”

Foi Ernesto Geisel quem ensinou há bastantes anos:

“Esse negócio de golpe é muito difícil. Vi sete, posso falar”.

Como Elio Gaspari conta na sua série Ilusões Armadas, o Alemão gostava de repetir essa frase sempre que era instado a comentar pela enésima vez a demissão de seu ministro do Exército, Sylvio Frota, assim como para rebater a possibilidade de um hipotético levante militar contra a posse de Tancredo Neves. Tendo participado ativamente de todos, desde tenente até general, a contabilidade de Geisel incluía quatro vitórias (1930, 1937, 1945 e 1964) e três derrotas (1955, 1961 e 1965).

Naquele que eventualmente seria o oitavo golpe de sua vida – a demissão de Frota -, novamente levou. Com a vitória, o mais marcial dos generais-ditadores acabou com a anarquia nos quartéis e restaurou o primado da autoridade presidencial sobre as Forças Armadas. Não foi pouca coisa. Desde então, não se ouvia sussurro sobre militares interferindo na agenda política e quase ninguém sabia o nomes dos generais de turno. Tudo isso acabou com a eleição de Jair Bolsonaro.

Self made man, Bolsonaro elegeu-se com uma candidatura nanica, desprovida de apoio parlamentar relevante e sem base social construída. Por instinto ou por temperamento, parecia claro que ele recorreria às Forças Armadas para preencher os cargos que ele, por ojeriza à tal “velha política”, recusava-se a compartilhar com o chamado “Centrão”. Sem golpe e pela via do voto, os militares estavam de volta ao poder, a ponto de o ministério de Bolsonaro contar com mais ministros de farda do que qualquer dos generais de 64.

Seja pelo histórico ostensivamente antidemocrático, seja por declarações do seu autoproclamado “núcleo ideológico”, o fato é que muita gente boa teme que Bolsonaro se valha das Forças Armadas para subjugar os demais poderes e poder governar sem as amarras impostas pela Constituição de 1988.

Deixemos de lado, por ora, a análise sobre se o Presidente e seu entorno de fato desejam e articulam algo do gênero. A questão é: até que ponto esse receio é fundado? Ou, mais especificamente, qual seria a possibilidade de um golpe – ou autogolpe – vingar no Brasil de hoje?

O primeiro ponto a ser destacado é o mais óbvio: o Brasil de 2020 não é o Brasil de 1964. Mais do que um truísmo, essa constatação palmar indica uma montanha de dificuldades que simplesmente não existia há 60 anos e que tornam no mínimo duvidoso o sucesso de qualquer empreitada golpista nos dias de hoje.

Pra começo de conversa, o fim do mundo da Guerra Fria acabou com a “desculpa” no mundo ocidental de que mais valia uma ditadura amiga ao seu lado do que um regime esquerdista inimigo apoiado (ou não) por Moscou. Esse foi o pretexto, por exemplo, para que os norte-americanos apoiassem a deposição de João Goulart, no Brasil, e de Salvador Allende, no Chile.

Hoje, o custo político de semelhante apoio é impensável. Nem mesmo a suposta “amizade” que Bolsonaro alega ter com Donal Trump impediria uma condenação imediata dos Estados Unidos e a imposição de sanções por parte do congresso norte-americano (como, de resto, de todo o mundo ocidental civilizado). Se algo semelhante se passasse, o país seria automaticamente lançado à condição de pária do mundo, com suspensão de relações diplomáticas e corte de transações comerciais e financeiras. O dólar, que andou se comportando nos últimos dias, explodiria, assim como a bolsa transformaria em pó o dinheiro de acionistas e investidores, fato que lançaria os empresários e a galera do dinheiro grosso imediatamente na oposição.

Em segundo lugar, as vias de exceção em mundo moderno são cada vez mais estreitas. Uma coisa era colocar tropas nas principais emissoras de televisão ou rádio e cortar as transmissões do país enquanto o golpe evoluía (fato que nem sequer foi necessário em 64, porque a mídia em peso aderiu ao golpe). Hoje, com redes sociais, YouTube e WhatsApp, o que os golpistas fariam? Derrubariam a Internet? Para fazê-lo, teriam que não só invadir os provedores de acesso à rede, mas também apreender os celulares de toda a gente, pois cada smartphone tem, em si, o mundo inteiro.

Se tudo isso não bastasse, a disposição atual de forças não contribui para qualquer movimento de deposição. Melhor explicando, o fato de Bolsonaro estar sentado na cadeira de Presidente limita abertamente sua margem de manobra, se de fato ele estivesse pensando em golpe.

Uma coisa, por exemplo, é querer depor um governo impopular, caótico e despreparado como era o de Jango. Sempre haveria quem se dispusesse a trocar o timoneiro do navio sob o argumento de tentar desviá-lo do iceberg. Mas quando a articulação se destina a manter o mesmo comandante no navio, o golpe viria a troco de quê? Para tirar o Congresso, que não tem feito mais do que ajudado o governo com reformas várias e a aprovação relâmpago do “orçamento de guerra”? Ou para destronar o Supremo, cujo trabalho técnico até aqui tem se limitado a desbaratar a criminosa rede de fake news que ataca a corte?

Não há de se esquecer que o governo Bolsonaro encontra-se em fase de franca queda de apoio popular. Ao contrário da curva da Covid-19, que só sobe, a curva de apoios ao governo só cai, a ponto de o Presidente ser obrigado pelas circunstâncias a negociar o apoio do outrora famigerado “Centrão” para escapar de um eventual processo de impeachment ou de uma improvável denúncia formulada pelo Procurador-Geral da República.

Não parece razoável, portanto, supor que, em semelhantes circunstâncias, um golpe dessa natureza pudesse resultar no Brasil. Com a maior parte da mídia contra o seu governo, sem suporte de 70% do eleitorado e com a galera do dinheiro grosso absolutamente contra qualquer tipo de marola, uma quartelada a essa altura do campeonato desafiaria não somente noções básicas de ciência política. Desafiaria a própria inteligência dos militares.

Não custa, entretanto, ficar de olho aberto. Afinal, cautela e canja de galinha nunca fizeram mal a ninguém.

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