O experimento de Milgram

Passadas as eleições, podemos retomar a rotina normal aqui no Blog. E, para não desapontar àqueles que vêm aqui em busca da variedade perdida no noticiário tradicional, vamos recorrer a uma das seções mais requisitadas deste espaço: as sempre controvertidas Ciências.

Muita gente se pergunta sobre o Holocausto e os demais horrores praticados pela Alemanha antes e durante a II Guerra Mundial. O imaginário popular costuma atribuir a Hitler e parte seleta de seus asseclas toda a responsabilidade pelas atrocidades cometidas pelo regime nazista. O buraco, contudo, parece ficar mais embaixo.

Que Hitler e sua trupe tiveram inegável responsabilidade por tudo que ocorreu, ninguém discute. Mas muita gente se esquece de que, embora houvesse uma cúpula culpada em última instâncias por todos os crimes cometidos pelo regime, quem “operava” na ponta eram pessoas comuns, ordinárias: engenheiros, padeiros, contadores, enfim… Uma infinidade de pessoas absolutamente normais, que nem sequer poderiam ser enquadradas no conceito de sádicos para justificar a condição circunstancial de carrasco nazista.

O que levou essa gente comum a embarcar na onda para torturar e matar gente inocente?

Foi justamente isso que intrigou um sujeito chamado Stanley Milgram. Judeu, psicólogo e divertido, Milgram começou a se perguntar se, submetidas a uma cadeia hierárquica, outras pessoas – que não os alemães do regime nazista – responderiam da mesma forma a comandos de ferir outras pessoas. Com um pouquinho de dinheiro e um bocado de astúcia, Milgram bolou o seu Experimento. Ele consistia no seguinte:

Anúncios do jornal recrutavam pessoas incautas a participar de uma experiência científica através do pagamento do dinheiro. Ao chegar no laboratório de Milgram, o pobre incauto era apresentado a outro participante, que, na verdade, era um membro da equipe de Milgram. Forjava-se então um sorteio, através do qual o verdadeiro participante assumiria a condição de “Professor”, e o membro da equipe de Milgram assumiria a condição de “Aluno”.

No Experimento de Milgram, o “Aluno” ficava preso numa sala fechada, sem acesso ao “Professor”. Enquanto o “Professor” fazia uma série de perguntas e respostas sobre associações de palavras, o “Aluno” tinha que respondê-las corretamente, sob pena de tomar um choque elétrico. À medida que o “Aluno” errasse, a voltagem do choque seria aumentada, numa escala que começava em 45 volts e terminava em 450 volts.

Obviamente, o “Aluno” fake não recebia choque algum. Mas o “Professor” não sabia disso. Para deixar a coisa ainda mais cruel para o participante, antes de o experimento começar um membro da equipe aplicava-lhe uma carga equivalente ao choque inicial, de 45 volts, só pra ele sentir o drama.

Durante o experimento, o “Aluno” propositalmente começava a errar em sequência as respostas, o que obrigava o “Professor” a aplicar choques com voltagem cada vez mais alta. E, por mais que nada de real estivesse acontecendo, o “Aluno” fake respondia com gritos de dor e até minutos de silêncio. Mesmo que o “Aluno” implorasse para que os choques parassem, o “Professor” era instruído a continuar com os choques.

Na cabeça de todo mundo, em algum momento o cidadão iria parar com o experimento e dizer que não seguiria mais com aquilo. Afinal, o senso comum determina que nenhuma pessoa normal faria mal a um desconhecido sem motivação justa, certo?

Errado. O que ocorreu foi justamente o contrário. Em 2/3 dos casos, os participantes iam até a voltagem final, a despeito da eventual dor que pudessem causar ao “Aluno” e ignorando as súplicas dele para que o experimento parasse por ali. Apenas 1/3 dos “Professores” se recusaram a seguir adiante, reconhecendo d’algum modo que nenhuma experiência seria válida se implicasse mal físico a um semelhante.

Milgram, portanto, conseguiu demonstrar que o mecanismo de “Obediência à autoridade” consegue transformar mesmo pessoas pacatas em potenciais carrascos nazistas. Uma vez que a pessoa se enxerga dentro de uma cadeira hierárquica, ela se torna apenas o instrumento de concretização de uma vontade alheia. Logo, na sua visão, ela deixa de ser responsável pelos seus próprios atos, porque está apenas colocando em prático aquilo que seus superiores determinaram.

Obviamente, o mundo caiu em cima de Milgram quando ele publicou o seu estudo. Além de quererem desacreditá-lo, houve muitos questionamentos acerca da validade da suas conclusões e até mesmo do caráter ético do estudo. Houve até quem sugerisse que os participantes tivessem sido submetidos a alguma espécie de “tortura” ao serem “obrigados” a aplicar choques imaginários em um desconhecido.

Passado o furacão, o tempo acabou por dar-lhe o devido crédito e, hoje, Milgram é amplamente reconhecido como um dos maiores psicólogos de todos os tempos. Para quem estiver interessado em se aprofundar, o livro encontra-se traduzido para o português. Não é uma leitura simples, mas, com um pouco de sorte, é possível encontrar alguma luz ao mergulhar nas profundezas da alma humana.

Obediência à autoridade

 

 

 

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