Escreva melhor; ou como deixar seu português mais bem escrito

Um problema recorrente identificado tanto na linguagem escrita como na oral é a dificuldade de muitas pessoas em utilizar corretamente o “melhor” e o “pior”.

Eu sei, eu sei, parece meio estranho sair por aí dizendo mais bem e mais mal. Por isso a insistência em dizer melhor e pior sempre.

Não consigo alcançar a razão desse preconceito. Provavelmente é trauma de 2a. série, quando o professor ficava martelando na nossa cabeça: “Mais bom, não! MELHOR!”

Há algum tempo, por exemplo, Fernando Henrique, em mais uma de suas trapalhadas, resolveu esculhambar o torneiro bissílabo de São Bernardo dizendo o seguinte: “Nós queremos brasileiros melhor educados, e não brasileiros que desprezam a educação, a começar pela própria”.

Qual o problema dessa frase?

Como você deve se lembrar, “melhor” é uma palavra que se destina a substituir a expressão “mais bom”. Do mesmo modo, “pior” serve para substituir “mais mau” (com U).

Em alguns casos, melhor também pode servir para substituir “mais bem”, quando for utilizado como comparativo de superioridade de “bem”. Exemplo: Fulano escreve melhor do que Beltrano. Quando está descansada, ela escreve melhor.

Mas quando há particípios envolvidos, a regra é escrever na forma analítica. Ou seja: mais bem. Por exemplo: esse texto está mais bem escrito do que aquele; o artigo está mais mal formulado do que o outro.

Nesse caso, não há opção. Você deve utilizar mais bem e mais mal. Faça isso sem medo. Esse é o português mais castiço.

Se você tiver dúvida, faça o seguinte: substitua o “melhor” ou o “pior”. Se a troca resultar em mais bom ou mais mau, mantenha do jeito que está. Tipo: eu vou fazer isso porque é melhor pra mim. Se você trocar, ficaria: eu vou fazer isso porque é mais bom pra mim. Chega dói nos ouvidos.

Agora, se houver algo assim: “Seu texto de agora está melhor escrito do que o que você escreveu há dois meses”. Fazendo a troca, ficaria: “Seu texto de agora está mais bem escrito do o que que você escreveu há dois meses”. Veja como o texto fica melhor e mais elegante.

E mais correto também. Para a maioria dos gramáticos, antes de particípio a regra é a utilização da forma analítica. Por isso, a vergonha do Fernando Henrique ao criticar a suposta ignorância alheia demonstrando a sua própria.

Fique atento e não tenha medo de escrever corretamente.

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5 respostas para Escreva melhor; ou como deixar seu português mais bem escrito

  1. Kellyne disse:

    Boa, Arthur! Em tempos em que a doutrina linguística diverge, quase que politicamente, sobre a existência no Brasil de uma presidente ou de uma presidenta, mais vale deixar as picuinhas de lado e estudar o português de verdade! Bjos

    • arthurmaximus disse:

      É iss aí, Kellyne. Mas, mudando de assunto, acabou de haver um plebiscito no Sudão pela separação do país. Você, como especialista em carta africana e em (não) direito de secessão, não se anima a escrever um post aqui sobre o assunto, não? Vamos lá! Courage! Bjos

      • Kellyne disse:

        Hum, esse courage em francês até que foi inspirador! Vamos ver, Arthur, não sou tão multifuncional como você, mas quem sabe… Bjos

  2. Rafael disse:

    Infelizmente, alguns autores de língua portuguesa morreram sem aprender:
    – “(…) a demonstração (…) seja melhor confirmada pelos fatos” (Alexandre Herculano);
    – “(…) que ande ele melhor avisado na organização (…)” (Machado de Assis);
    – “O ponto (.) melhor tornado no terreno alheio (.)” (Camões, em “Os Lusíadas”, IX, 58);
    – “Santarém é das terras de Portugal a melhor situada e qualificada.” (Almeida Garrett);
    – “(.) aceitou um almoço melhor adubado que o da ceia (.)” (Camilo Castelo Branco, em “O Santo da Montanha”);
    – “Levou seu prêmio melhor logrado” (Padre Manuel Bernardes);
    – “(…) mais decidida, senão melhor armada” (José de Alencar).

    • arthurmaximus disse:

      Pois é. E infelizmente alguns gramáticos – como Napoleão Nunes de Almeida, Pasquale Cipro Neto e Paschoal Cegalla (este ainda admite, com ressalvas, o uso do “melhor” em alguns casos) – continuam a errar, como eu. O “argumento de autoridade” é o pior (“mais mau”) dos argumentos, justamente pela qualificação de “autoridade”, que remete a “autoritário”. Esquece-se dos fatos e passa-se a discutir com base no saber – ou não – de quem faz determinada afirmação. Ah, e da próxima vez que for fazer algum comentário do tipo, sugiro que transcreva os períodos inteiros, pois somente a transcrição de excertos impede a compreensão completa do que o sujeito escreveu. Desse modo, fica impossível saber se o escritor errou ou não. Abraço.

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